A distância ainda é grande no Nordeste

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A economia do Nordeste está crescendo, mas a troca de mercadorias com o Centro-Sul continua desigual. Por isso, o transporte rodoviário de cargas naquela região não tem o peso que se vê no Sudeste ou no Sul. Devagar, com a chegada de indústrias e abertura de grandes portos, como o de Suape (PE), a situação começa a mudar

Nelson Bortolin

Em nove anos, de 1997 a 2006, o PIB do Nordeste cresceu 173% – mais do que os 163% do Sudeste e os 151% do Sul. Em onze anos, de 1996 a 2007, o número de indústrias no Nordeste aumentou 65% – muito mais que os 39% de crescimento do total de indústrias do Brasil. Essas estatísticas do IBGE não deixam dúvidas: o Nordeste vem crescendo numa velocidade bem maior que o Sul e o Sudeste. Mas, mesmo assim, continua sendo uma região que compra mais mercadorias do que vende, causando um desequilíbrio que onera as transportadoras de cargas que fazem essa ligação.

Segundo os trans­portadores, boa parte das carretas que sobe o mapa volta vazia. Longas distâncias a serem percorridas, políticas fiscalizatórias diferentes em cada Estado e estradas ruins são outros complicadores da atividade.

O moderno Porto de Suape, em Pernambuco: fator de fortalecimento da economia da região

Lumare Jr., da Braspress: “No Nordeste, você roda mais e faz entregas menores”

Na Transportadora Braspress, dois terços das carretas que viajam semanalmente para o Nordeste não conseguem carga de retorno. “São 70 carretas por semana, mas só umas 20 descem carregadas”, afirma o diretor comercial Giuseppe Lumare Júnior.

Ele diz que não é fácil atender bem ao Nordeste. “Por ser uma região que se abastece no Centro-Sul, seus lojistas trabalham com mais estoque, mas, como em qualquer outro lugar, sofrem com a escassez de capital de giro. Por isso, quando fazem um pedido, querem velocidade na entrega. Esse é o grande desafio do transporte para o Nordeste”, resume.

Segundo Lumare, esse fato obriga as transportadoras a terem uma estrutura operacional maior na região. A Braspress tem 13 filiais por lá e vai abrir mais duas.

A Atlas Transporte, com 12 filiais no Nordeste, também tem carretas que voltam vazias. “A ociosidade dos veículos que estão lá é bem maior do que no Sul. Por isso, o frete para levar uma mercadoria do Nordeste para outras regiões é mais barato”, informa o gerente Cleantho Camargo e Silva. Segundo ele, outro complicador é o trabalho no interior. “Em comparação com Sul e Sudeste, a densidade populacional é baixa, o que torna as entregas mais difíceis e mais caras. Você roda mais e faz entregas menores.”

Poletto, da TNT Mercúrio: “Barreiras fiscais comprometem o tempo de viagem”

Com 18 filiais na região, na TNT Mercúrio também se observa a ociosidade de veículos no retorno do Nordeste, principalmente em períodos de pico – viradas de mês e final do ano. “Isso encarece um pouco o processo”, afirma Edgar Poletto, diretor de Marketing e Venda. Segundo ele, a dificuldade só não é maior porque a empresa tem “boa participação” no transporte do mercado calçadista do Nordeste, principalmente no Ceará.

BARREIRAS – As transportadoras reclamam que perdem muito tempo e dinheiro nas barreiras fiscais dos nove Estados do Nordeste. “Em razão da agressividade da indústria do Sul, eles criaram uma estrutura para se proteger da concorrência com exigências maiores”, diz Antonio G. dos Santos Junior, gerente da Atlas. Segundo ele, em alguns Estados a fiscalização é no posto de divisa e em outros na capital. “Quando o posto está dentro da cidade, você leva a mercadoria até a transportadora, pega um malote com notas fiscais e vai até lá. O fiscal vai liberando as notas. O que não está liberado fica na transportadora aguardando a regularização”, conta. “Hoje temos 30% do nosso depósito com mercadoria esperando liberação”, completa.

Edgar Poletto, da TNT Mercúrio, também reclama das barreiras fiscais. “Nós projetamos nosso tempo de viagem, mas muitas vezes ele aumenta. Chegamos a ficar 48 horas esperando a liberação de mercadorias.”

A desigualdade está diminuindo

Da exportação do coco à fabricação de automóveis, a economia do Nordeste evoluiu muito nas últimas décadas, na opinião do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga da Bahia (Setceb), Antonio Siqueira. “Em 70, começaram a vir para cá as indústrias de cerveja. Depois, as de alumínio e cobre. E, nos anos 80, a indústria petroquímica”, diz ele, lembrando também da instalação da Ford em Camaçari (BA) há menos de 10 anos.

Fábrica da Ford em Camaçari (BA): diversificação na produção industrial

O presidente do Sindicato das Empresas de Pernambuco (Setcepe), Antonio Jacarandá Gaspar de Oliveira, acrescenta a essa lista a Sadia, que este ano inaugurou fábrica em Vitória de Santo Antão (PE). “Pernambuco tem sido muito exigido em termos de logística e melhorou bastante.” Oliveira espera que o polo petroquímico em instalação em Suape leve mais progresso à região. “Está havendo uma interiorização de indústrias, o que vai exigir mão de obra qualificada”, afirma.

Para o diretor comercial da Braspress, Giuseppe Lumare Júnior, alguns centros industriais chamam a atenção no Nordeste, como o de Fortaleza, “que é um polo de confecções muito importante”.

Ribeiro, da Iveco: investimento em revendas no Nordeste

Já o presidente da Associação Nordestina de Logística (Anelog), Fernando Trigueiro, aposta que Pernambuco irá impulsionar o desenvolvimento de todo o Nordeste como um grande polo logístico. “Todas as capitais do Nordeste – exceto São Luís – estão num raio de 800 quilômetros de Pernambuco. Por isso o Estado é visto como um potencial grande centro de distribuição.” Em Pernambuco, existem sete aeroportos, dois portos – o de Suape é um dos mais modernos do País – e a Ferrovia Transnordestina vai ligar os portos de Pecém (CE) e de Suape ao município de Eliseu Martins (PI). “Apesar de todos os problemas que a gente passa, minha expectativa é de que, em cinco anos, Pernambuco se torne um polo extremamente competitivo.”

O gerente de marketing da montadora Iveco, Fernando Ribeiro, com­partilha do otimis­mo das lideranças nordestinas. “Notoriamente o Nordeste tem assumido um papel de maior importância no negócio de caminhões”, diz ele, lembrando que, além de ter conquistado indústrias, a safra de cana da região também tem um papel importante no negócio sucroalcooleiro. Como consequência da situação, observa Ribeiro, a Iveco está “investindo fortemente” na região, através do Grupo Navesa, com concessionários em Salvador, João Pessoa, Recife, Fortaleza e, em breve, Maceió.

Dois problemas: atravessadores e “invasores”

Para os transportadores autônomos do Nordeste, o grande problema da região são os atravessadores e os “invasores” do Sul. Segundo o presidente do Sindicato dos Caminhoneiros (Sindicam) do Ceará, Clóvis Fava Filho, a participação do modal rodoviário no transporte da região está acima da média nacional, 90%, mas, em compensação, o número de intermediários é maior. “Eles ficam com a maior parte dos rendimentos que deveriam ser do autônomo e de algumas boas empresas do ramo.”

Segundo Fava, o autônomo está fadado a desaparecer no Nordeste. “Já fomos responsáveis por 70% do transporte e hoje não fazemos nem 40%”, calcula. Ele acusa os embarcadores da região de desrespeitarem os diretos do transportador, principalmente a lei da estadia. Mas acredita que a lei 11.442, que regulamenta o setor, vai fazer o embarcador “se conscientizar dos direitos dos transportadores”.

Já o presidente do Sindicam da Bahia, Fernando Lucena, afirma que os caminhoneiros do Estado são penalizados em relação aos do Sul. “Em julho do ano passado, quando estivemos em São Paulo, vimos que o frete estava 50% mais alto que aqui, embora os pneus e as peças sejam mais caros para nós”, diz ele, defendendo uma tabela nacional de fretes.

Lucena diz que, mesmo assim, e para piorar, o Nordeste “está sendo invadido por caminhoneiros do Paraná e de São Paulo”. “Muitas vezes, os motoristas nordestinos são pressionados a baixar o frete porque, do contrário, as empresas ameaçam entregar o serviço aos caminhoneiros do Sul, que precisam de carga de retorno”, acrescenta.

Estradas são ruins, mas há trechos em duplicação

Pesquisa recente feita pela CNT revelou que o Nordeste é a região em que as estradas estão em piores condições. Foram pesquisadas 109 rodovias. Todas as 15 que receberam conceito “ótimo” são de São Paulo. Das 19 “boas”, apenas duas são do Nordeste. A região ficou com 18 das 58 “regulares” e nove das 17 “ruins”.

“É o principal problema da região”, acusa o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga da Bahia (Setceb), Antonio Siqueira. Ele acha que a BR-116, que passa por São Paulo, Rio, Minas, Bahia e sobe em direção a Juazeiro, precisa ser duplicada. Diz o mesmo em relação à BR-101, “que vem beirando a costa”. E destaca a importância de melhorias na BR-242, que liga a Bahia a Tocantins e Mato Grosso e em alguns trechos nem tem pavimentação.

Trecho da BR-116 entre Brejo Santo e Milagres, no Ceará

O pernambucano Antonio Jacarandá, presidente do Setcepe, lembra que o governo federal vem fazendo alguns investimentos nas rodovias da região, como a duplicação de trechos da BR 101 – “o trecho de João Pessoa a Pernambuco está quase concluído” – mas acha que são necessárias mais obras, e mais rápido. “O crescimento da região está mais acelerado que a melhoria da infraestrutura. E tudo começa a se deteriorar. As cheias recentes pioraram ainda mais a situação.”

O DNIT informou que, dos R$ 7,3 bilhões do seu orçamento de 2009 para obras rodoviárias, R$ 1,6 bilhão, ou 22%, foram destinados ao Nordeste. Até o momento, foram empenhados R$ 915 milhões e pagos R$ 109 milhões. A maior parte do orçamento é destinada a conservação, restauração e sinalização. Apenas R$ 362 milhões são para construção e duplicação. Confira no quadro abaixo as principais obras de duplicação.

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