Mortes em rodovias não param de crescer

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As rodovias de Minas Gerais são um teatro de horrores. Ora é o excesso de curvas da BR-381, ora é a descida desembestada do Anel Rodoviário de Belo Horizonte. As tragédias se sucedem

Luciano Alves Pereira

A dualidade lembra o histórico Cassino de Quitandinha, em Petrópolis (RJ); as tragédias se sucedem no formato de road show (sem intervalos). De um lado, o morticínio da BR-381; no seu oposto, o Anel Rodoviário de Belo Horizonte.

O que fazer quando se contam nove mortos, em dois carros, esmagados pela carga de rolos de fios-máquina (também chamados de arame pelos estradeiros), caídos de uma carreta? Eram 3 horas da madrugada de 25 de junho. Isto foi na BR-381, rodovia ultrapassada, de altíssimo potencial mortífero, diante do qual o governo Lula se omitiu descaradamente.

E o palco giratório segue. O próximo ‘espetáculo’ é esperado para o Anel Rodoviário. Também tem potencial para matar muita gente, mas nenhuma solução foi encaminhada, seja no efetivo controle do seu tráfego (80 mil veículos/dia) ou na adequação de suas pistas.

Os radares ajudam, mas experiências de usuários sugerem soluções baratas e rápidas

Cabe correção: mais de R$ 800 milhões do PAC 2 estão reservados à requalificação de seus 34 km, eliminando os estreitamentos (como na travessia de uma ferrovia sobreposta), construindo vias laterais e adequando os acessos aos bairros vizinhos.

Por trágica coincidência, o funil “ferroviário” fica no final de uma descida de mais de 7 km, com rampas de 10% – muito íngremes para o volume de tráfego. Dia 13 de maio, uma carreta não conseguiu parar e esmagou 17 veículos. Nove dias depois, outro “descontrole do freio” e outro esmagamento, com três mortes.

A Polícia Militar Rodoviária, fiscalizadora do trecho, sugere o paliativo de sempre: mais lombadas eletrônicas. Por que não tentar variar ouvindo os profissionais do asfalto?

José Leandro: o freio avisa quando está com problema

Eles têm visões coincidentes em alguns pontos e em outros não. O autônomo José Leandro Clementino, de Patos de Minas, acha que falta de freio não explica nem justifica os engavetamentos. “Freio a ar não falha”, lembra. “Se tem um vazamento, ele trava; ele avisa que está com problema. Além disso, tem o painel, que foi feito para se olhar.”

Outro veterano, José Carneiro, vice-presidente nacional do Movimento União Brasil Caminhoneiro, discorda de José Leandro: “O cara vai descendo, dá um defeitinho no compressor, que começa a fazer pouco ar, e o motorista só vai sentir a deficiência quando começa a apertar o pedal”.

“O certo é descer devagar, engrenado”, afirma Carneiro, repetindo o que todos sabem mas alguns insistem em não fazer. Ele já viu muitos acidentes no trecho da serra. “Muitas vezes ajudei os bombeiros a tirar gente das ferragens.”

José Carneiro: o certo é descer engrenado

Zé Leandro e Carneiro concordam que é preciso intervir na via com urgência, considerando que as obras de melhorias vão levar anos. Para Leandro, “é rápido e barato repintar o pavimento, restaurando o acostamento de 3 metros de largura, desde os Olhos d’Água (só na pista de descida)”.

Já a proposta de Carneiro é inovadora. “Defendo a construção de rampas de escape, como existem em vários países de Europa e nos Estados Unidos.” Trata-se de um desvio enviesado, de morro acima, com 500 metros de extensão e pista de 7 metros de largura. Numa de suas metades, asfalto; na outra, caixa de brita. No final, um batente de pneus. Ele recomenda duas dessas construções entre o começo, sob o primeiro viaduto na bifurcação da BR-040 e o trevo da Betânia, no fim da despencada.

O ponto forte na argumentação de José Carneiro é que “haja opção para o motorista, pra não morrer nem matar”. Pelos seus cálculos, “um rabicho desses fica barato, por isso o governo prefere não fazer”. Que coisa, heim?

Quando falta freio, o caminhão trava ou não trava?

O engenheiro mecânico Rubem Melo, da Transtech (especializada em inspeção veicular), de Curitiba, mais amigo que leitor da Carga Pesada, ao ler o texto da reportagem acima já publicado no nosso site, nos escreveu comentando a divergência entre a opinião do José Leandro Clementino, segundo o qual “freio a ar não falha, se tem um vazamento ele trava”, e a do José Carneiro, para quem “um defeitinho” no compressor pode reduzir a produção de ar que só vai ser percebida quando for tarde demais.

Afirma o Rubem: “Nem sempre problema de freio ocorre por ‘falta de ar’; muitas vezes é pelo superaquecimento do sistema. E nem todas as carretas travam quando falta ar; as mais antigas (anteriores à resolução 777/93) não tinham “cuicão”, e, se faltar ar, ficam sem freio mesmo”.

Esta rampa de escape fica em Portugal: para José Carneiro, uma solução “simples e barata”. E segura

Sobre a rampa de escape, Rubem diz que ela não teria sido útil para evitar o trágico acidente com nove mortos citado na reportagem, porque naquele caso a carreta tombou para a pista contrária. “A solução está em investimento pesado e imediato na rodovia e no treinamento dos nossos caminhoneiros”, completa.

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