Ponta Grossa (PR) terá sua fabrica de caminhoes

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Para muitos motoristas que levam cargas entre a região Sul e o restante do Brasil, Ponta Grossa (PR) está no caminho. E vai se tornar uma cidade ainda mais atraente: em 2013, ganhará uma fábrica de caminhões da marca DAF

Guto Rocha

Isto é que é vocação antiga: 200 anos atrás, no início do século 18, a região onde hoje está Ponta Grossa, no Paraná, era um importante ponto de parada na rota utilizada pelos tropeiros, que levavam gado e muares do Rio Grande do Sul para São Paulo. Passado esse tempo, Ponta Grossa transformou-se no entroncamento rodoferroviário que é considerado o mais importante do Sul do País.

A cidade consolidou-se como polo logístico e de serviços voltados para o setor de transporte de cargas. “Ponta Grossa tem a seu favor uma tradição transformada em estrutura. E isso transparece nos investimentos, na formação e na própria dinâmica da cidade e de sua gente”, comenta o prefeito Pedro Wosgrau Filho.

Por Ponta Grossa passam as rodovias BR-376, que faz ligação com o Norte do Paraná e com Curitiba, e BR-373, que um pouco adiante alcança a BR-277, caminho para Foz do Iguaçu e o Mercosul. Ali pertinho também está a BR-153, Transbrasiliana, rodovia que leva ao Sul e ao Norte do País, e por outra saída, pela PR-151, se vai de Ponta Grossa para o Estado de São Paulo, passando por Itararé.

Para completar o potencial de escoamento e recebimento de cargas, fica em Ponta Grossa o entroncamento ferroviário da América Latina Logística – Malha Sul. A ALL tem no município 180 km de linha férrea e dois pátios de manobras: Desvio Ribas e Uvaranas. Estes terminais recebem trens de diversas regiões, fazendo ligação com São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Argentina e outras regiões do Paraná. Os principais produtos transportados são etanol, açúcar, farelos, milho, papel, óleos vegetais, fertilizantes e cimento. Em 2010, o movimento nos dois pátios chegou a 1,475 milhão de toneladas úteis.

A presença destes entroncamentos e sua proximidade com Curitiba (120 km) e com os portos de Paranaguá e Antonina (200 km), foram fatores determinantes para que a fabricante de caminhões Paccar – a segunda maior dos Estados Unidos – escolhesse Ponta Grossa para instalar uma unidade no Brasil. São dela os veículos das marcas DAF, Kenworth e Peterbilt.

Caminhões DAF que serão fabricados em Ponta Grossa; à dir., o prefeito Wosgrau e o presidente da DAF, Marco Antonio Davila, cumprimentam-se diante do governador Beto Richa

No dia 15 de setembro passado, quando a cidade completou 188 anos, o governo do Paraná assinou o protocolo de intenções para a instalação de uma fábrica que vai exigir investimentos de R$ 342 milhões e criará 500 empregos diretos.

A expectativa do grupo norte-americano é iniciar a produção de caminhões da marca DAF em abril de 2013, com a montagem de caminhões nos modelos LF (leves de 7,5 a 21 toneladas), CF (médios) e XF (pesados e extrapesados).

Segundo informações da Agência Estadual de Notícias do Paraná, a vinda da Paccar para o Estado foi possível graças à concessão de incentivos fiscais pelo Programa Paraná Competitivo e ao apoio da prefeitura de Ponta Grossa. O prefeito Wosgrau Filho afirma que, além de benefícios fiscais, o município ofereceu suporte na qualificação dos trabalhadores de todas as linhas. “Acreditamos que tão importante quanto a localização estratégica, a política de qualificação e preparo da mão de obra de nossos trabalhadores tenha sido decisiva para atrair a Paccar/DAF, além das outras empresas que estão se instalando em Ponta Grossa”, comentou.

O secretário municipal de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional, João Luiz Kovaleski, que também é coordenador do curso de Mestrado de Engenharia da Produção da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), diz que a presença de universidades públicas e privadas e cursos técnicos oferecidos pelo Senai e Senac garantiu essa mão de obra qualificada. “Ponta Grossa já é o segundo polo metalmecânico do Paraná e o carro-chefe da formação de engenheiros pela UTFPR é voltado para este setor”, comenta.

O simples anúncio da chegada da Paccar/DAF já provocou impacto na economia do município. O prefeito afirma que sua equipe está agora trabalhando para confirmar a atração de várias empresas fornecedoras da Paccar/DAF ou que pretendam se tornar fornecedoras. “Também estamos recebendo negociadores de outras cadeias produtivas que, a partir do exemplo da Paccar/DAF, encontram em Ponta Grossa um ambiente propício para expandir suas atividades e realinhar seus programas de produção”, diz.

Kovaleski observa que o reflexo é perceptível no comércio, com a chegada de novas redes varejistas e com a ampliação dos hotéis. “A vinda da Paccar vai causar o mesmo impacto que a Volvo causou em Curitiba há 40 anos”, acredita. Ele estima que o PIB do município pode dobrar em apenas cinco anos com a presença da fábrica. “Nosso PIB é de R$ 4,7 bilhões por ano. Esse é o valor que a Paccar acredita que suas vendas somarão num período de cinco anos”, informa.

“Vem gente de longe consertar caminhão aqui”

O setor de transporte de cargas como um todo também vai se beneficiar com a chegada da montadora norte-americana a Ponta Grossa, dizem as lideranças ouvidas pela Carga Pesada. Segundo estimativas do prefeito Wosgrau Filho, a cadeia produtiva do transporte de cargas responde por cerca de 10% da economia municipal.

Mauri Bevervanço, do Sindiponta: o ICMS do Paraná é menor que em outros Estados

Segundo o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Ponta Grossa e região (Sindiponta), Mauri Bevervanço, o município é um grande polo voltado para o setor de transporte de carga. “Vem gente de outros Estados para consertar caminhões aqui. Temos profissionais muito qualificados, de borracheiros a torneiros ou em qualquer outro serviço que um caminhão precise”, afirma.

Bevervanço observa que os custos desses serviços também são mais atraentes do que em outras localidades. “Isso se deve ao regime tributário do Paraná, com ICMS menor que outros Estados, e ao grande número de prestadores de serviço”, explica.

O Sindiponta, segundo Bevervanço, reúne 140 empresas transportadoras de cargas, que empregam cerca de 10 mil caminhoneiros. Ele conta que a tradição do transporte de carga no município é antiga, e muitas empresas familiares já estão na segunda geração de herdeiros. Outras se transferiram para o município por causa da localização ou porque o IPVA é mais barato. “No Paraná, o IPVA do caminhão é de 1% do seu valor, enquanto em outros Estados chega a 2,5%.”

O dirigente está otimista com o anúncio da instalação da fábrica da Paccar. “A expectativa é de que nossos negócios cresçam na medida em que a indústria e suas fornecedoras que venham a se instalar por aqui utilizem nossos serviços”, comenta.

Neori Tigrão Leobet, dos autônomos: à espera de facilidades com uma fábrica de caminhões em casa

O presidente do Sindicato dos Transportadores de Carga de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, Neori Tigrão Leobet, afirma que, por todas essas razões, o município merece o título de “Capital do Caminhoneiro”. O sindicato reúne motoristas autônomos. Tigrão afirma que “todo caminhoneiro que vai para o Sul, vindo do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, passa por aqui, e, quando sobem, carregados de fertilizante, também vão por Ponta Grossa”, comenta.

Segundo dados da Rodonorte, concessionária que administra o pedágio no município, diariamente passam pelas rodovias da região 12 mil caminhões. Somam-se a eles os 15 mil caminhões emplacados no município, segundo dados da Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional.

Tigrão também se diz otimista com a chegada da Paccar/DAF. Ele acredita que os seus 13 mil caminhoneiros associados sejam beneficiados com o aumento da oferta de fretes que deve ocorrer. “Mas também esperamos ter facilidades para a renovação de nossa frota, com preços menores.”

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