Para Ada, caminhão é liberdade

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Foi uma das primeiras a irem para a estrada, 25 anos atrás

Luciano Alves Pereira

Ela desce da boleia como se fosse dar uma volta no shopping: calça ajustada no corpo, blusa cavada para mostrar as flores tatuadas no ombro direito. Só faltam os saltos-altos. E com razão: Adamari Liasch, ou simplesmente Ada, é motorista de carreta e trabalha no transporte de cargas perigosas. Tem 25 anos de volante, nasceu em Alfenas (MG) e mora em Americana (SP). Puxa químicos, petroquímicos e é habilitada no descarregamento de hidrogênio.

Começou na São Vito, no interior de São Paulo. Foi sua escola. O diretor da empresa visitou os EUA e ficou admirado com o número de mulheres tocando carretas. Na volta, abriu vagas para elas. Ada foi aprovada.

Não se exigia carteira E na época. O período de aprendizado foi brabo. Seu batidão começou de Paulínia a Santos, em São Paulo. Era um Scania 112 que carregava corrosivos e assemelhados. Depois de 15 dias, já subia a serra com o bruto sozinha. Mas morro abaixo… “Na primeira vez que desci carregada e com o pé no freio, toquei fogo no pneu”, conta. Divertido mesmo foi dominar as manobras. “No pátio, quando eu começava, rolavam apostas dos machistas.”

Nenhum obstáculo a fez desistir. “Meu pai me explicava que cada um tem seu dom. A questão é se sentir realizada em harmonia com o dito”, filosofa. E não fica por aí. Tem mais afirmativas convictas. Por exemplo: “Tenho paixão pela profissão, porque me permite estar em lugares que não se repetem”. Com um detalhe bem coerente de “não gostar de tiros curtos”. No momento, está com o Ford Cargo 2842 zero, pertencente ao amigo Rosendo, de Itirapina (SP). O equipamento é agregado da Transportadora Contatto, de Limeira (SP).

Ada não esconde seu orgulho de pioneira. “Abri as portas para outras mulheres. Eu era barrada nas empresas. Tinha de lutar pelo espaço, na marra.” Ada foi das primeiras mulheres no País a serem aprovadas no curso de MOPP (movimentação de produtos perigosos). Também nunca pensou em comprar caminhão.

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Ada, a dois anos de se aposentar: em harmonia com seu dom

Os (baixos) fretes só causam apertos aos donos. Além disso, faltam dois anos para me aposentar”, justifica.

A motorista de Americana tem três filhos adultos e eles não se opõem à sua vida agitada de viajante. Ano passado, ficou viúva de seu segundo casamento, mas “não fechou o coração” para, quem sabe, talvez, “uma terceira experiência”. Dotes não lhe faltam.

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