O caminhão também viaja de trem nos EUA

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Só a carreta, bem entendido. Assim como o contêiner. Com uma integração racional, caminhões e trens fazem sua parte num país continental que soube organizar o transporte de mercadorias

Sérgio Caldeira

Uma cena bastante comum nos Estados Unidos são centenas de composições ferroviárias apinhadas de pranchas carregadas de semirreboques. É o sistema ‘piggyback’. Principalmente nos trajetos de longa distância, muitos semirreboques e reboques ou contêineres são levados sobre vagões para melhorar a produtividade tanto do transporte rodoviário quanto do ferroviário.

O serviço intermodal tem contribuído para o setor ferroviário não sucumbir nos EUA, em especial no caso dos contêineres. Em 2014, nos Estados Unidos, os caminhões movimentaram 68,8% de toda a carga doméstica, cerca de 9,96 bilhões de toneladas, segundo a American Trucking Associations, entidade dos transportadores rodoviários dos EUA. A fatia vem crescendo a cada ano: era 63% em 1998.

A operação de transportar carretas sobre pranchas, de trem, é chamada de ‘piggyback’, expressão que significa “carregar porcos nas costas”, como era comum antigamente

O setor de transporte rodoviário de cargas (TRC) emprega mais de sete milhões de trabalhadores em 1,3 milhão de empresas. Metade é de caminhoneiros. A média de rodagem por caminhão é de 110.400 quilômetros anuais.

São expressivas as cifras do TRC na movimentação de carga num país de grande tradição ferroviária como os Estados Unidos e que expandiu seu território graças aos investimentos nos trilhos no século XIX.

O que mudou por lá? Uma explicação está na criação de rotas rodoviárias mais recentes, mais curtas e mais capilarizadas que as feitas pelos trens. Outras razões: a descentralização industrial e populacional pelo território norte-americano, com novos polos no Noroeste e no Golfo do México; a implantação do sistema just-in-time, que obriga a indústria a evitar estoques e fracionar os carregamentos da produção; e o fato de os caminhões chegarem a muito mais lugares do que o trem: hoje o transporte de cargas de 80% das comunidades dos EUA é feito só por caminhões.

Já na década de 70 foi concluída a construção de rodovias como a I-5, a I-80, I-40 e I-15, interestaduais com pistas duplicadas e bons traçados, vislumbradas pelo ex-presidente Dwight D. Eisenhower ao verificar, na Segunda Guerra Mundial, o quanto as Autobahns facilitavam o transporte de tropas e material bélico na Alemanha.

Antes disso, uma de suas viagens de Leste a Oeste durou cerca de dois meses passando por primitivos caminhos de terra. Com a criação do sistema de autoestradas interestaduais e o asfalto se espalhando pelo interior do país, o caminhão passou a fazer viagens de longa distância e a chegar a lugares que o trem não alcançava.

A relação entre o caminhão e o automobilista (que adora caminhonetes enormes) não é conflituosa nos EUA, nem nas cidades, nem nas estradas. Semirreboques de transportadoras tradicionais como FedEx, e outras, se misturam e dão vida à paisagem. As carretas são puxadas por exemplares de Peterbilt, Kenworth, Volvo, Freightliner, Mack e International, de todas as cores e modelos.

Quase sempre na configuração 6×4, para enfrentar os trechos com gelo no inverno, caminhão e caminhoneiro são respeitados e admirados. No cotidiano do estradeiro dos EUA, caminhões são usados até para ir ao supermercado, alguns são transformados em casas ambulantes (motorhomes) ou adaptados para puxar trailers de camping.

Lá são comuns semirreboques baús (refrigerados ou não) ou pranchas com comprimento de 53 pés (16,1 metros). Já os cavalos não têm restrição de comprimento, podendo chegar ao comprimento do semirreboque, com gigantescas “casas” instaladas atrás da cabine, feitas sob encomenda por valores que chegam a R$ 400 mil, só da área do dormitório com cozinha e banheiro.

O peso do transporte ferroviário continua expressivo na América do Norte, mas o TRC de lá mostra cada vez mais força na grande quantidade de caminhões que ‘desfilam’ pelas boas rodovias e largas ruas das cidades da terra do Tio Sam, especialmente os da classe 8, os extrapesados dos EUA.

Uma “ponte” no deserto

Contrastando com as regiões densamente povoadas, como o Leste (o lado do Oceano Atlântico), as imensas áreas desérticas do Oeste dos EUA seriam totalmente desoladas se não fosse o frenético movimento de carros, caminhões e trens que passam por suas inóspitas paisagens.

Existe uma grande integração entre os dois principais modais terrestres no cotidiano do transporte de cargas nos EUA. Principalmente pela região mais árida do país, boa parte das cargas é transportada através dos trilhos das ferrovias. Outra parte vai pelas rodovias interestaduais I-15, I-40. Ainda tem a I-80, que segue paralela à linha da Union Pacific e vai de costa a costa. Ao lado da escaldante I-40 se encontram os trilhos da BNSF – Burlington Northern Santa Fe.

O país funciona como uma ‘ponte terrestre’ entre a Ásia e a Europa. Os navios que saem da China teriam que contornar a América do Sul ou passar pelo Canal do Panamá para alcançar a Europa. Em vez disso, atravessam o Oceano Pacífico, atracam na costa Oeste dos EUA, os contêineres são levados de trem para os portos do Leste e embarcados em outros navios, que cruzam o Atlântico e completam a viagem para a Europa.

Já os semirreboques se utilizam das centenas de terminais pelo interior do país. Cavalos mecânicos a postos se encarregam de fazer a distribuição das mercadorias em trechos curtos. É provável que, se não fosse essa ‘tabelinha’ com o setor rodoviário, as ferrovias da maior nação do mundo teriam entrado em colapso. Isso quase aconteceu 40 anos atrás.

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