Perigo no anel de Belo Horizonte

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Daf - 90 anos

No fim de janeiro, um único acidente deixou cinco mortos, 12 feridos e 12 veículos esmagados na via por onde passam 100 mil veículos por dia

Luciano Alves Pereira

Num sucesso musical de Emílio Santiago, um verso diz: “Nosso apartamento, um pedaço de Saigon…” A intenção é falar de caos e correria, como aconteceu na retirada dos americanos de Saigon, capital do Vietnã do Sul, na guerra perdida nos anos 70. Pois pode-se dizer que a situação do Anel Rodoviário de Belo Horizonte repetiu aquela balbúrdia, com autoridades sem se entender quanto ao que fazer para estancar o morticínio brutal registrado naquela via. São 26 km de tráfego saturado e acidentes catastróficos no entorno da cidade.

No dia 28 de janeiro, a TV mostrou o momento em que um Volvo FH 12/380, de Mundo Novo (MS), desceu desembestado os seis quilômetros de declive do Anel, esmagando 12 veículos no funil de uma passagem sob um viaduto ferroviário. Cinco mortos, 12 feridos, alguns graves.

O motorista Leonardo Farias Hilário, de 24 anos, disse que nunca tinha passado pelo trecho. Leonardo estava sentado em 65 toneladas de PBTC (37 t de soja a granel) e soltou o bruto. Bateu a 115 km/h, segundo a polícia.

Pela CMT (capacidade máxima de tração) do caminhão, seu PBCT não poderia passar de 55 toneladas, tendo em vista o eixo traseiro do fabricante, o modelo RAEV, não ser especificado para isso. Seu RNTRC estava suspenso na ocasião. Na consulta ao CNPJ, encontra-se a A.C.A. Marques ME (nome fantasia Cia Brazil) como proprietária do bitrem. Consta lá que sua atividade econômica principal é confecção de peças de vestuário.

Tais irregularidades não explicam a barafunda de Saigon no Anel Rodoviário, que foi inaugurado em pista simples em 1963. O que de fato retrata o ‘barata-tontismo’ da crise havida é a desafinação de ações e intenções dos governos envolvidos. Sem falar nas instituições e variadas entidades privadas.

Ali morreram 39 pessoas em 2010. A via tem “dono”, mas é alvo de disputa: o DNER, hoje DNIT, a construiu, o Estado de Minas pleiteou-a para si e a prefeitura de Belo Horizonte também. Porque, afinal, virou corredor urbano de mais de 100 mil veículos/dia.

Dada a gravidade da situação, o DNIT decidiu instalar cinco lombadas eletrônicas que estavam sendo colocadas no fechamento desta edição. Limite de 60 km/h para caminhões e ônibus e 70 km/h para veículos de passeio. Prometeu ainda um ‘pardal’ para a descida.

O Estado de Minas, através da Polícia Militar Rodoviária, guardiã do trecho, constatou que sua fiscalização é muito tímida (após o acidente de 28 de janeiro, mais dois caminhões bateram na fatídica descida do bairro Betânia).

Já o prefeito da capital, Márcio Lacerda, mexeu num vespeiro: propôs a proibição de caminhões das 17 à 20 horas. Imediatamente, Ulisses Martins, presidente do Setcemg (sindicato das transportadoras de Minas), opôs-se, dizendo que é impossível estacionar tantos cargueiros no, digamos, retroplanalto do bairro Jardim Canadá (de Nova Lima).

José Carneiro, líder sindical local, sugere a construção de rampas de escape ao longo do trecho em declive. José Natan, presidente do sindicato dos caminhoneiros de BH, é drástico: “Só uma sequência de quebra-molas segura a turma”. E um agente da Polícia Rodoviária Federal, que pede anonimato, sustenta que “nenhum desses paliativos garante o controle dos caminhões” – ele diz conhecer a raça.

A topografia da região e as dimensões da estrada mostram o tamanho do problema. No planalto do Jardim Canadá, a altitude é de 1.300 m. No primeiro estágio, cai para 1.100 m (viaduto do Mutuca ou Paulo Lutterback), com uma reta quase plana no final. O desabalo vem a seguir. A altitude cai até 850 m, na ponte do Córrego Ferrugem, bairro das Indústrias. Agora, como pode uma via de 100 mil veículos diários manter pontes que reduzem a pista de três para duas faixas? As tragédias não cessam.

Assim, curvando-nos à visão pessimista do agente da PRF, deduz-se que a via tem um aleijão de nascença. E a lista de desencontros entre autoridades e lideranças desnuda um quadro de falta de rumo.

CNT colocou faixas: vá com cuidado

Assim que aconteceu o acidente com o Volvo FH12 de Mundo Novo (MS), a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), num gesto inesperado, rompeu sua rotina, digamos, de gabinete, para instalar painéis de aviso aos caminhoneiros à beira da BR-040, perto do trecho perigoso (veja na pág. anterior). Os painéis se sucedem a cada mil metros, com mensagens como esta: “Caminhoneiro, daqui a 6 km você estará chegando ao Anel Rodoviário, na realidade, uma via urbana, onde circulam milhares de veículos diariamente. Fique atento!”

A indicação dos km decresce até o início da despencada mais forte, quando ‘o noticiário’ muda para “Caminhoneiro, atenção! Perímetro urbano. Reduza a velocidade para 60 km/h. Mantenha sua direita”.

A CNT e seus afiliados Sest e Senat também promoveram uma blitz de segurança, distribuindo aos estradeiros um kit com instruções para um trânsito mais seguro.

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