Caminhoneira: Marlene não quis mais sentir falta do Eleseu

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Scania - Nova Geração

Beatriz Amaro

Quando se casou com Eleseu Heinen, 37 anos atrás, Marlene não imaginava que ambos se tornariam caminhoneiros. Hoje, ela nem se lembra das razões que levaram o marido para a estrada, mas sabe que isso aconteceu há 30 anos. “Ele pegou gosto pela atividade”, diz.

O casal tem três filhos: Fábio, 35 anos; Patrícia, 33; e Henrique, 24. Quando o caçula fez 10 anos, Eleseu, que trabalhava de empregado, passou a fazer o trajeto de Boa Vista (RO) a São Paulo (SP) numa carreta. “Ele ficava muito tempo fora. Eu reclamava e ele sugeriu que eu fosse junto”, contou. Eleseu então a ensinou a dirigir um Scania 124 e Marlene, aos 40 anos de idade, tirou carteira E. “Eu assumia o volante para ele não ter que tomar rebite e poder descansar.” Voltavam sempre que podiam para Planalto (PR), onde moram até hoje, para rever e dar atenção aos filhos, que ficavam com os avós.

Marlene e Eleseu trocam um beijo: cama boa é a cama do caminhão

Os trajetos do casal eram longos. Chegaram a ir para o Chile e à Argentina. “Mas o Chile é muito frio e preferi não ir mais com o Eleseu. Então, oito anos atrás, ele decidiu comprar um caminhão para nós. Eu o ajudei. Compramos um Scania 112 e puxávamos verdura numa câmara fria. Fizemos muito a rota de Manaus. Nossa vida melhorou. Conseguimos pagar a faculdade dos três filhos – o mais novo fez duas faculdades –, compramos uma casa e até um caminhão mais novo, um Volvo FH 2007”, contou Marlene, que é quem negocia cargas, paga as contas e administra o negócio, tudo pelo telefone.

Como mulher, Marlene confessa que, vez ou outra, pensa em estar em casa para “ter as mãos feitas e poder ir ao salão”. Mas sua prioridade é Eleseu. “Nós somos companheiros. Tomamos chimarrão todas as manhãs, eu cozinho no caminhão, temos uma cama de casal, geladeira, conversamos muito. Às vezes conseguimos até parar numa praia. Depois de 14 anos como caminhoneira, eu também gosto muito desta vida”, constata, dizendo que as esposas devem ser incentivadas a viajar ao lado dos maridos. “Já passamos por situações ruins, de caminhão quebrado na estrada, longos dias na balsa de Manaus, fretes baixíssimos a estadias mal pagas, mas estamos juntos. Temos muitas histórias para contar.”

Hoje, quando comemoram, justamente em julho, 37 anos de casamento, contam com o apoio dos filhos. “Sempre procuramos estar ao lado deles em momentos importantes”, diz Marlene. “No dia da formatura do caçula, fizemos o possível para chegar a tempo, mas atrasamos. Mesmo assim, quando ele nos viu entrando no salão, foi uma grande emoção e um choro só.” Eleseu, o marido, afirma que “eles acabaram entendendo que é muito bom poder estar ao lado de quem se ama. E confio nela ao volante, a mulher sempre é mais cuidadosa, não se arrisca. Durmo tranquilo enquanto ela dirige”.

A paixão de Marlene e Eleseu pelo FH 2007 é tão grande que, nas festas de final de ano, “a casa enche e não sobram quartos, mas nós não nos importamos: nossa cama fica no caminhão”, informa Marlene. “Digo ao Eleseu que, quando ele se aposentar, teremos de encostar o caminhão perto de casa para que ele possa dormir, senão ficará doente.” Eleseu concorda e reforça: “Quando dormimos em casa, acho a cama muito grande. Digo a ela para levar o celular pra cama, pra eu ligar se nos perdermos…”

A vida na estrada não permite passar períodos longos com os filhos, que agora moram em cidades diferentes. “A prestação do caminhão é alta, temos que trabalhar. A gente sente saudades deles, mas um ajuda o outro a superar.” Para amenizar, a neta Flávia, de 14 anos, costuma viajar com os avós nas férias.

O casal ao lado da cozinha de Marlene: muito para conversar

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