Amarração de carga: Tá um cai-não- cai sem fim

0

DAF - XF105

SETEMBRO DE 2010

Chico Amaro

Num dia de agosto, uma pequena morte foi registrada na Marginal do Rio Tietê, em São Paulo. Pequena porque só mereceu cinco linhas nos sites dos grandes jornais: “Uma pessoa morreu e outra ficou ferida quando toras de madeira caíram de um caminhão na pista expressa da…” Eram garis. Estavam no lugar errado, na hora errada. Um azar! A verdade é que aquela pequena morte, e sua causa, seriam ainda menos notadas, se não fosse pelo fato de “interesse coletivo” que a notícia informava em seguida: que, por causa desse acidente, a Marginal ficou totalmente bloqueada por mais de uma hora.

Pois é. Mortes atrapalham o trânsito e, como são tão comuns, a gente corre o risco de se acostumar com elas. Mas, antes que isso aconteça, um grupo de pessoas tem trabalhado firme para tentar evitar que cargas continuem escorregando de carrocerias e provocando tragédias às vezes muito maiores que essa da Marginal do Tietê.

Essas pessoas são os membros da Câmara Técnica de Assuntos Veiculares (CTAV) do Conselho Nacional de Trânsito, que decidiram se ocupar com um assunto ao qual, até recentemente, se dava pouca atenção no Brasil: a necessidade de estabelecer normas técnicas adequadas em relação à amarração de cargas dos caminhões.

O Brasil é o país dos sem-terra, sem-casa, sem-escola – e também dos sem-estatística. Ninguém sabe quanta gente é vítima de cargas mal amarradas nos caminhões que andam por aí, porque não se faz exame de perícia em muitos acidentes. O engenheiro mecânico Rubem Penteado de Melo, da Transtech (especializada em inspeção veicular), que dá treinamentos em amarração de cargas, desconfia que as vítimas são muitas. “Mas a gente só fica sabendo dos acidentes mais sérios. Recentemente, na BR-381, em Caeté (MG), produtos siderúrgicos caíram em cima de dois automóveis e mataram nove pessoas. Soube também de uma bobina de aço que caiu na pista outro dia na Dutra. Notícias assim são frequentes”, afirmou.

Existem outras pistas sobre a gravidade da situação. Em Colatina, no noroeste do Espírito Santo, centro de extração de rochas ornamentais, os excessos e negligências dos transportadores provocaram quatro mortes e seis graves acidentes nos primeiros seis meses de 2007, segundo publicou, na época, o jornal A Gazeta, de Vitória. Naquela ocasião, a cidade estava em guerra contra os transportadores, o Ministério Público em cima, mas foi difícil enquadrar os infratores, porque eles resistiam a obedecer uma legislação adequada, que foi baixada naquele momento e reforçada recentemente. É esta nova legislação que traz uma linguagem mais técnica, mais precisa, sobre questões de amarração de cargas e seu transporte. O texto a seguir é sobre essas novidades.

Não basta corrente. Às vezes, tem que ser linga.

A verdade é esta: já existiam resoluções do Contran com requisitos técnicos para a amarração de cargas de toras de madeira (196/06) e de produtos siderúrgicos (293/08). Existiam, continuam valendo e, provavelmente, se fossem seguidas à risca os acidentes já citados não teriam acontecido.

Mas em 1º de julho passado, entrou em vigor a Resolução 354/10, que estabelece normas para o transporte de rochas ornamentais, serradas ou em blocos, e adiciona elementos a uma resolução anterior (264/07) sobre o mesmo assunto. Ali fica clara a tendência à adoção de normas técnicas claras e rigorosas na amarração de cargas. Elas estão presentes não apenas na definição, por exemplo, do tipo de caminhão que pode fazer certo tipo de transporte (para os blocos de 38 toneladas ou mais, tem que ser um bitrem com dolly), mas nas especificações dos dispositivos de segurança.

Agora não é só “corda”, “cinta”, “corrente”, palavras de significado genérico, que se precisa usar para fixar uma carga a um caminhão. Agora os dispositivos são descritos, por exemplo, assim: “As correntes foram substituídas por lingas de corrente grau 8, de ½ polegada, devidamente identificadas por plaquetas de aço contendo nome do fabricante, capacidade de carga, comprimento e código de rastreabilidade”. (Pra quem não sabe: linga é uma corrente com um gancho com trava de segurança no final, para ser conectado a um terminal).

Esse é um trecho do texto escrito pelo representante da NTC na CTAV, Neuto Gonçalves dos Reis, no qual ele explica detalhes da Resolução 354/10 e mostra que, com esse grau de especificação, que facilita a fiscalização, o transporte ficará, aí sim, mais seguro no quesito amarração de cargas.

Em resumo, nessa Resolução 354/10, a definição técnica de equipamentos e acessórios para amarração de cargas foi adotada para acabar com o amadorismo causador das pequenas mortes e das grandes tragédias.

Diante disso, aos transportadores cabe observar, em primeiro lugar, que o assunto de amarração de cargas vai se tornar cada vez mais técnico, para aumentar a segurança de todos – inclusive, e especialmente, dos próprios motoristas e outros ocupantes do caminhão.

Outro fato relevante é que, segundo Neuto Gonçalves dos Reis, a Câmara Técnica de Assuntos Veiculares do Contran já recebeu a missão de fazer um estudo no mesmo sentido para a amarração de carga geral, não apenas da indivisível ou da mais pesada. “Já começamos a nos reunir para realizar esse trabalho. Estamos estudando as normas europeias, que trazem fórmulas de cálculo e dimensionamento. Você determina quantos pontos de amarração são necessários, em função do peso da carga e do peso bruto do veículo, fixa a distância entre os pontos de amarração e define o material com o qual deve ser feita a amarração”, informa Reis.

Ele não sabe quando o trabalho ficará pronto, mas tem certeza de que é urgente. “No transporte acontecem coisas do arco da velha. Fotos mostram cargas que não caem por milagre de tão altas, tubos na vertical, cargas soltas, improvisações de correntes ou cabos de aço ancorados numa carroceria de madeira que certamente não vai aguentar… Temos que mudar esse modo de agir.”

Aprendia-se com o quase-acidente. Hoje ocorrem tragédias.

Antigamente havia menos acidentes por causa de cargas mal fixadas em caminhões. “Os motoristas aprendiam a fazer a amarração com a experiência, com o quase-acidente. Às vezes eles viam que a carga se movia, paravam e amarravam de outro jeito diferente”, diz o engenheiro Rubem Penteado de Melo. “Mas hoje isso não é mais possível. Os motoristas experientes já não são tantos, a quantidade de veículos e de cargas aumentou muito, não dá tempo dos novos aprenderem com pequenos quase-acidentes, o que acontece são acidentes de fato”, prossegue.

Interessar-se em aprender sobre amarração é uma necessidade. Nos casos já regulamentados pelo Contran, é obrigatório. “Mas não existe, no Brasil, um manual geral de fixação de cargas, com instruções técnicas, que diga como se fazem certos cálculos, quantos dispositivos de fixação se deve ter, se deve ser usada corrente, se é cinta de poliéster…”, afirma Rubem.

Entre as noções mais elementares que dizem respeito à amarração de cargas, está o conhecimento do valor das forças que atuam sobre a carga. Conforme se vê na ilustração ao lado, o sistema de amarração tem que segurar, numa freada, uma força equivalente a 80% do peso da carga, caso contrário ela se deslocará em direção à cabine. “Mas não basta saber isso”, continua Rubem, “o valor dessa força também tem a ver com o atrito entre a carga e o piso da carroceria, pode ser maior ou menor. Tudo isso precisa ser levado em conta”.

De toda forma, os transportadores estão mais atentos à questão da amarração, segundo o engenheiro, seja por causa da segurança, seja em razão do peso do caminhão. “O pessoal não está sabendo posicionar a carga em cima dos caminhões e isso está gerando multas por excesso de peso por eixo. Nas rodovias pedagiadas, o controle de peso tem sido rigoroso”.

O engenheiro Fuertes colabora estudando normas

O engenheiro eletricista Fernando Fuertes, de São Paulo, fez um relevante trabalho de assessoria à Câmara Temática de Assuntos Veiculares do Contran para a definição dos termos técnicos constantes da Resolução 354/10, que estabeleceu as normas de segurança para o transporte de rochas ornamentais.

Fuertes é um estudioso do assunto segurança. No início da década, ele era representante comercial de uma empresa europeia que fabricava cintas de amarração de cargas (“amarração” também abrange elevação) e via como era difícil vendê-las para empresas de transporte. “Diziam que aquilo era caro e sofisticado. Então fui pesquisar as normas brasileiras de segurança e notei que não existiam. Por isso passei a colaborar com órgãos como a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) na elaboração de nossas próprias normas de amarração de cargas”, explica.

Fez isso – faz até hoje, mas essas coisas demoram tempo – mas… continuou sem vender muita coisa. Mas como o mercado de amarração inclui setores sofisticados como o portuário e o siderúrgico, e sempre exigiu profissionais capacitados para trabalhar com segurança, Fuertes abriu uma empresa de consultoria e treinamentos na área – a Amarração Serviços de Publicidade e Consultoria Técnica (www.amarracaodecargas.com.br).

Com seu interesse pelas questões e definições técnicas na área de amarração, o engenheiro descobriu Neuto Gonçalves dos Reis na NTC, informou o tipo de conhecimento com que trabalhava e começou ali uma relação que resultou no  chamamento para que ele colaborasse com as definições técnicas introduzidas na Resolução 354/10. No texto divulgado à imprensa, no qual registrou os detalhes da resolução, Neuto fez um agradecimento especial à dedicação de Fuertes.

“Minha contribuição foi para acertar a especificação técnica dos equipamentos”, diz Fuertes. “Falava-se em correntes para amarração, mas não em linga, que é uma corrente com gancho com trava de segurança na ponta. Então, para prender a corrente, se usam parafusos ou porcas, e isso é perigoso”.

Segundo ele, já está prevista uma revisão das resoluções relativas ao transporte de toras de madeira e produtos siderúrgicos, para esse mesmo tipo de modificação do texto.

Para completar, afirma Fernando Fuertes, hoje em dia existem cálculos e equipamentos que garantem a boa amarração da carga em qualquer situação – menos numa colisão. “Muitos acidentes que ocorrem por aí poderiam ser evitados com a distribuição e a amarração corretas. Talvez demore para todo mundo aprender, mas chegaremos lá.”

Scania - Consorcio
Compartilhar
Transpanorama - A 2 maior

Deixe um comentário