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Naquela época, começou a se mostrar vestida com roupas femininas. “Carregava o caminhão nas empresas com roupa de homem, mas parava no primeiro posto, me trocava e seguia viagem vestida de mulher.” As pessoas a olhavam com curiosidade e algumas chegavam para conversar. “Eu dizia que era uma brincadeira.”

Mas o destino colocou uma segunda mulher na vida da caminhoneira. Foi uma paixão que virou tormento. A nova companheira sabia que Afrodite usava roupas femininas. De início, parecia não se importar.

A caminhoneira, que era espírita kardecista, começou a se envolver com a igreja evangélica que a mulher frequentava. Aos poucos, adotou a religião. “Fazia doações para a igreja e cheguei a pregar em cidades do interior.”

Logo, a segunda mulher se tornou implicante e intolerante. “Rasgava minhas roupas e levava irmãs evangélicas para casa para me curar fazendo orações.” Queriam “tirar o diabo” do corpo de Afrodite.

Numa cerimônia de casamentos coletivos na igreja, a caminhoneira descobriu que a união dela com a companheira também seria celebrada naquele dia. “Arrumaram para mim. Acabei casando.”

Foram 14 anos de chateações. Afrodite voltou a esconder que usava roupa feminina. “Minha mulher não deixava eu viajar sozinha, lia minhas correspondências, me vigiava o tempo inteiro.”

Ao final do relacionamento, sobraram dívidas e mágoas. Mas nasceu Afrodite.

VIDA NA ESTRADA – Ao mudar-se de São Paulo para Cuiabá, no final dos anos 1970, ela comprou seu primeiro caminhão: um F400, com o qual transportava material elétrico e de construção. Hoje, tem um Mercedes-Benz 708, ano 1988, com baú, e carrega mudanças.

Jura que somente uma vez sentiu-se desrespeitada nos últimos três anos. Um homem quis atacá-la por ser transexual, mas um colega segurou a briga. “Meu amigo chamou policiais rodoviários para pegar o cara, mas eu pedi para deixar quieto.” Os policiais, de acordo com ela, a conhecem e a tratam bem.

A caminhoneira vem conquistando respeito por onde passa. Aos poucos, conseguiu convencer os donos de postos a deixá-la usar os banheiros femininos.

Quem nunca aceitou Afrodite foram dois de seus irmãos. “Quando me viam de mulher, tiravam fotos e mandavam para a minha filha. Xingavam, me perseguiam e até tentaram me agredir”, lamenta. Ela chegou a registrar boletim de ocorrência e entrou com ação contra os irmãos. “Ainda tenho contato com eles, mas não comentam mais sobre o assunto.”

Suas duas irmãs e a maioria dos sobrinhos a apoiam, assim como o genro e a ex-mulher. Mas o alicerce de Afrodite é a filha Tatiana, de 43 anos, mãe de sua única neta, a Vivian. “Minha filha é a razão da minha vida. Lamento não ter acompanhado toda a infância dela porque estava sempre viajando.”

Tatiana aceita naturalmente a transexualidade da caminhoneira. Só não quer que ela faça cirurgia. “Devido à minha idade, diz que é muito arriscado.”

Afrodite toma hormônios e está na fila do SUS para colocar seios. Não sabe se vai operar, mas pensa que o procedimento é necessário para ela se sentir completa. “Gostaria de fazer minha cirurgia porque, quando me sentir mulher por completo, posso arrumar um companheiro.” Ela nunca se relacionou com um homem. E não se identifica como homossexual e nem heterossexual. “Estou fazendo terapia para me entender.”

Reencarnacionista, tem certeza que já viveu em corpo de mulher em outra existência. “Desta vez, vim com a missão de homem para trazer minha filha à vida.”

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