Roubo, tombamento e fogo são desafios para o transporte de algodão

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Carga vale em média R$ 350 mil contra R$ 35 mil dos fretes de soja

Nelson Bortolin

Estima-se que entre agosto e novembro deste ano, cerca de 70 mil cargas de algodão em pluma circulem pelo País. Apenas 10% delas vai se movimentar dentro do território nacional – das regiões produtoras até as indústrias. A grande maioria se destina à exportação, principalmente pelo porto de Santos.

Ao contrário do que possa parecer, o transporte de algodão é uma atividade bem mais complexa que o de grãos. Isso porque o produto é bem mais caro e visado pelos bandidos. Em média, uma carga de soja custa R$ 35 mil e a da fibra, por volta de R$ 350 mil. Além disso, os carregamentos de algodão estão mais sujeitos a tombamentos e incêndios.

“O transporte do algodão é diferenciado. Ele tem regras e um custo diferente (do transporte de grãos) pelo próprio preço da mercadoria. Tem empresas que se aventuram no frete do algodão. Entram neste mercado sem conhecer as regras e os devidos cuidados, mas não duram um ano”, afirma o empresário Santo Nicolau Bissoni, diretor da Botuverá Transporte, com sede em Rondonópolis, e que se dedica ao transporte de algodão há 45 anos. “O algodão é nossa prioridade. É o nosso principal faturamento.”

Segundo ele, os tombamentos de carretas carregadas de algodão são mais comuns devido à altura da carga e a falta de experiência dos condutores. Em recente mudança de legislação, aumentou-se o limite máximo de 4,5 metros para 4,7 metros de altura, sem necessidade de licença especial. “No transporte de grãos, o motorista desvia do buraco, cai no acostamento e tudo bem”, compara. Quando segue com algodão, o caminhoneiro não pode fazer essas manobras sob o risco de tombar. E a velocidade também tem de ser menor.

A movimentação de algodão acontece durante todo o ano, mas se intensifica entre os meses de agosto e novembro. E, neste ano, vem preocupando ainda mais os transportadores devido à seca histórica no Centro-Oeste, “grande índice de incêndios” e à chegada da chuva. “A pista está cheia de óleo devido à seca. Então começa a chover e, até a pista ser lavada, fica muito perigoso”, explica.

O fogo também é um inimigo da atividade. Segundo o empresário, muitos incêndios ocorrem porque deixa-se de respeitar o tempo de “descanso” do produto. Depois de colocado em fardos, o algodão precisa “curar” por entre 20 e 30 dias.

As queimadas no entorno das estradas são outro grande risco. Levadas pelo vento, as fagulhas incendeiam cargas de algodão em movimento. E os motoristas só percebem quando já é tarde demais.

Bissoni desconfia que também há algo errado com os novos caminhões. Nos últimos anos, ele vem percebendo que os veículos pegam fogo mais rapidamente. “Já passamos essa informação para os engenheiros, para as montadoras, para que eles tentem descobrir o que está acontecendo, se é a tecnologia embarcada, o ar-condicionado, o freio”. Mas ele ainda não encontrou a resposta.

Em 2019, a Botuverá sofreu quatro incêndios com carregamentos de algodão e, neste ano, já foram três. A empresa tem 180 veículos próprios e um cadastro de cerca de 2 mil motoristas que trabalham para ela. O algodão é transportado em carretas LS e em bitrens de 7 e 9 eixos.

Devido aos fatores citados pelo empresário, o transporte de algodão, ao contrário do de grãos, exige gerenciamento de risco.

“Estamos há dois anos sem roubo devido a um trabalho realizado junto com a gerenciadora de risco (GR Global Rastreamento). Importante ressaltar os procedimentos e controles que devem ser alinhados com o gerenciamento. A empresa adota os procedimentos e critérios a serem cumpridas para a segurança da operação, entre eles: o check-list do veículo, a definição da melhor rota, escolha de motorista treinado para operar o rastreador, controles de velocidades, horários para pernoite, acompanhamento efetivo 24 horas por dia da viagem, etc…” afirma.

A maior parte do algodão transportado pela Botuverá segue para o porto de Santos, mas há carregamentos entregues a indústrias no Nordeste, Santa Catarina, Paraná e no interior de São Paulo.
Questionado sobre o atual mercado do frete de algodão, o empresário diz que “dá para trabalhar”. Não porque a atividade está sendo bem remunerada, mas pela queda no preço do diesel. “O combustível baixou e o frete permaneceu.”

Outra queixa do empresário é quanto ao agendamento de cargas e descargas de algodão. Veja no vídeo:

GERENCIAMENTO

Alexandre Pires Pinheiro, diretor da GR Global Rastreamento, de Rondonópolis (MT), diz que, no ano passado, três das cerca de 30 mil viagens gerenciados pela empresa foram roubadas com cargas de algodão. De acordo com ele, não há estatísticas nacionais disponíveis sobre as ocorrências deste tipo de produto, mas geralmente elas são registradas em Goiás, no Triângulo Mineiro e no Estado de São Paulo.

Muitas vezes, segundo o diretor, os casos envolvem a colaboração de condutores e a mercadoria é receptada por intermediadores que revendem a carga para pequenas algodoeiras.

Pinheiro conta que as seguradoras exigem gerenciamento de risco para o transporte de algodão por se tratar de mercadoria visada para o roubo e de alto valor agregado. Há diversas exigências que devem ser cumpridas para a total segurança da operação e, em muitos casos, é necessário a utilização de iscas na carga. “Tem carga que tem de seguir com escolta pelo valor e também por conta do risco da região”, conta.
Uma exigência básica das apólices de seguro são as consultas aos cadastros dos condutores.
Cerca de metade das cargas que a empresa gerencia é de algodão.

As queimas e tombamentos, segundo o diretor, são mais comuns que os roubos, primeiro por conta do período de seca prolongado e muitos focos de incêndio nos entornos das rodovias. Já no caso dos tombamentos, vários fatores contribuem, como carga alta, rodovias mal conservadas, condutores sem a devida experiência em transportar deste tipo de carga.

Veja mais no vídeo:

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2 Comentários

  1. Os assaltos acontecem pela letargia das autoridades, não existem blitz como antigamente. infelizmente passam todo tipo de cargas ilegais e como não tem a fiscalização, a criminalidade deita e rola.
    B0ons tempos onde nos alegravam sendo parados para uma a fiscalização honesta e respeitosa onde em muitas delas os fiscais eram vistos como nossos amigos e protetores, mas hoje…

  2. É lamentável, quando se lê, em uma reportagem o comentário de uma pessoa como o senhor Alexandre Pires Pinheiro em que o condutor é um dos principais fatores na colaboração do roubo de cargas, de algodão e de outras. Onde ele afirma acima; ” Muitas vezes, os casos envolvem a colaboração de CONDUTORES “. Não seria mais prudente dizer que em todas as vezes o CONDUTOR, é uma VÍTIMA impotência, que muitas vezes sofre com torturas psicológicas para não reagir na abordagem do roubo. Ou ele acha que o motorista tem que reagir a dentadas, socos e pontapés e morrer, para talvez, talvez, provar que os CONDUTORES, não tem nada de comum com o roubo? Diante destas declarações absurdas, tem muitos profissionais “CONDUTORES”, honestos, competentes, experientes, que esta com o nome no Serasa, muitas vezes por um pequeno valor, que negociaria assim que recebesse o primeiro salário, são eliminados nas análise de seus currículos, profissionais, estes, que honraria qualquer oportunidade que lhe oferecesse.

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