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Covid interrompe história de amor de caminhoneiros

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Após 21 anos dividindo a boleia com Marlene, Eleseu foi levado pela doença

Foram 42 anos de casamento, 21 deles vivendo juntos na boleia. A história de amor entre Eleseu Heinen e Marlene, retratada na capa da edição 180 da Revista Carga Pesada (em 2015), foi interrompida dia 26 de março do ano passado, quando a covid-19 levou o caminhoneiro e deixou a mulher sem chão.

O casal de motoristas de Planalto (PR) vivenciou o pesadelo de um vírus que já ceifou mais de 670 mil vidas no Brasil. E de um jeito ainda mais sofrido: na estrada, longe da família e sem infraestrutura médica adequada.

Conforme conta Marlene, Eleseu começou a sentir os primeiros sintomas da doença no dia 5 de março, quando acordou tremendo de febre. A mulher logo pensou em covid, mas ele dizia que era apenas uma dor de garganta.

Como a persistência da febre, resolveram comprar os remédios que, na época, eram chamados de kit covid. Eleseu melhorava. Parecia que iria se curar, mas logo voltava a piorar.

Começaram as crises de tosse. O casal estava em São Gotardo (MG). Marlene quis chamar o Samu, mas o marido resistiu. E não queria entregar a direção à mulher. “Acho que ele tinha medo de passar a direção para mim e não voltar mais. Que foi o que aconteceu.”

Quando chegaram em Santos (SP), a filha havia marcado uma teleconsulta para o pai. “A médica passou mais uma injeção”, conta Marlene. Era um antibiótico. Nessa altura, a mulher também já estava com sintomas. “Tinha muita dor nas costas e febre.” Mas não chegou a desenvolver a forma grave da doença.

“Os filhos começaram a desesperar”, lembra.  São três filhos: Fábio, 42 anos; Patrícia, 40; e Henrique, 31. O mais velho, que mora no Rio Grande do Sul, pegou o carro e foi ao encontro dos pais. Marlene levou o caminhão até Curitiba. Eleseu foi deitado durante a viagem. “Quando chegamos (na capital paranaense), meu filho já estava nos esperando.”

Os dois caminhoneiros foram consultados num hospital especializado em covid em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Eleseu recebeu suporte de oxigênio. Marlene não precisou. Ambos foram liberados algumas horas depois. A médica avisou que, se a saturação do motorista baixasse a 90, era para eles voltarem ao hospital.

“Meu filho foi para um hotel e nós ficamos no caminhão. Naquela época não aceitavam pessoas com covid nos hotéis.” Marlene não dormiu a noite, de olho no oxímetro (aparelho que mede a quantidade de oxigênio circulando no sangue). De manhã, precisaram voltar para o hospital. “Ele não queria. Dizia que se fosse para o hospital morreria lá”, lembra.

Mas não teve jeito. O caminhoneiro estava muito debilitado.

O filho alugou uma casa perto do hospital e levou a mãe com ele.

Eleseu ficou cinco dias internado antes de ser entubado. E fez várias ligações pelo celular para a família. Depois, foram mais 10 dias até o óbito. O pesadelo durou 21 dias. “Uma das coisas que mais me deixa triste é que não me deixaram falar com ele antes de entubar.”

Quando o motorista adoeceu, faltava um mês para ele tomar a primeira dose da vacina.

PRESSENTIMENTO

Marlene acredita que, de alguma forma, nos últimos tempos, o marido estava se despedindo da família. O caminhão e a casa em Planalto, Eleseu já havia deixado em nome da mulher. “Antes de a gente sair para a viagem, ele deu dois abraços bem apertados no pai dele, que tem 93 anos. Pensei que o Eleseu estava achando que o pai iria morrer. No fim, foi ele que não voltou mais.”

RECOMEÇO

Passado mais de um ano, a motorista, que hoje tem 61 anos, começa a pensar no que vai fazer da vida. Ela tem passado temporadas nas casas dos filhos que a “superprotegem”. Dois moram em Cascavel (PR) e um em Farroupilha (RS).  Marlene segue vivendo em Planalto, onde os parentes (irmãos, cunhados, tios) não a deixam ficar sozinha.

“Os filhos não querem que eu volte para a estrada.” Logo após a morte do marido, ela vendeu o caminhão – um Iveco 2011 – que ainda não estava quitado. “Na época, nem tinha condições de pensar em dirigir. O mundo tinha acabado para mim.”

Mas Marlene sente falta da estrada. “Se tivesse um caminhão, eu voltava. Ia recomeçar devagar. Eu amo caminhão.” Ela não descarta arrumar um emprego como motorista.

CONSCIENTIZAÇÃO

Embora a vacinação contra covid tenha tornado a doença menos agressiva de forma geral, ainda há muita gente morrendo em decorrência do coronavírus no País, principalmente pessoas mais velhas.

Henrique Heinen, filho do Eleseu e da Marlene, aconselha os caminhoneiros a manterem os cuidados para evitar o contágio. “Sentimos na pele a gravidade da covid. O vírus levou meu pai e deixou toda uma família transformada, sem uma das suas bases”, declara.

Segundo ele, depois de ter garantido a formação dos três filhos, era hora do pai aproveitar mais a vida, trabalhar menos, e curtir os netos. “Mas aconteceu essa fatalidade. É preciso que as pessoas se conscientizem e se cuidem”, afirma.

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