Produzido a partir de óleo de soja, gorduras animais e óleo de cozinha usado, combustível dispensa adaptações nos caminhões
Nelson Bortolin
Desenvolvido como alternativa para empresas que buscam reduzir imediatamente as emissões de carbono sem substituir caminhões, adaptar motores ou alterar a infraestrutura de abastecimento, o combustível Be8 BeVant já atende mais de 100 clientes no País. Ele é produzido em Passo Fundo (RS) pela multinacional Be8 a partir de biodiesel obtido de óleo de soja, gorduras animais e óleo de cozinha usado.
Em entrevista à Revista Carga Pesada, o head de Unidade de Negócio da Be8 BeVant, Sandro Tapparo, conta que o produto surgiu como resposta à dificuldade de adoção do HVO (Hydrotreated Vegetable Oil) no Brasil devido ao alto custo de produção. “O HVO tem grande aceitação na Europa, mas entendemos que seria muito difícil implantar essa tecnologia na matriz econômica brasileira. Então nossos técnicos desenvolveram um produto que preserva as qualidades do HVO, porém com custo menor e fabricação mais simples”, explica.
A solução resultou em um combustível bidestilado produzido a partir do biodiesel convencional, do qual são retiradas impurezas como glicerina, resíduos graxos e metais, tornando-o mais puro e adequado ao uso em motores diesel.

Sandro Tapparo, head de Unidade de Negócio da Be8 BeVant

O desenvolvimento do produto exigiu aproximadamente um ano de pesquisas laboratoriais e outro ano de testes de bancada antes da realização dos ensaios de campo. Atualmente o Be8 BeVant já possui autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para produção e comercialização e é fornecido diretamente para empresas por meio do modelo B2B.
Segundo Tapparo, a empresa já comercializa o combustível há cerca de um ano. “Nós temos mais de 100 clientes que utilizam o Be8 BeVant como um produto de linha, substituindo totalmente o diesel fóssil”, afirma.

Sem adaptações nos veículos

Um dos principais diferenciais do produto é ser um combustível do tipo drop-in, ou seja, pode substituir diretamente o diesel convencional. Isso significa que caminhões Euro 3, Euro 4, Euro 5 e Euro 6 podem utilizar o combustível sem qualquer alteração mecânica. “O transportador simplesmente substitui o diesel pelo Be8 BeVant e o veículo entrega o mesmo desempenho”, diz Tapparo.
Além da compatibilidade com os motores atuais, o executivo destaca outras vantagens. Segundo ele, por ser um combustível extremamente puro, o produto mantém filtros mais limpos, reduz a necessidade de manutenção e possui ponto de fulgor superior a 130°C, tornando seu manuseio mais seguro do que o diesel convencional.

Produção utiliza matérias-primas renováveis

O biodiesel utilizado como matéria-prima é produzido principalmente a partir de óleo de soja, gorduras animais e óleo de cozinha usado. Durante o processo industrial ocorre uma reação química chamada transesterificação, que gera o éster utilizado no biodiesel. Em seguida, esse biodiesel passa por uma nova etapa de destilação, originando o Be8 BeVant.
Segundo Tapparo, trata-se de um processo já consolidado no Brasil. “Hoje cerca de 15% de todo o diesel consumido no País já passa por essa indústria. É um processo industrial maduro e realizado em larga escala.”
Hoje a produção específica do Be8 BeVant é de aproximadamente 3 milhões de litros por mês. No entanto, como todo o biodiesel produzido pela companhia pode ser convertido nesse combustível, a capacidade potencial chega a 150 milhões de litros mensais. Além disso, a empresa estuda homologar produtores parceiros para fabricar o produto em outras regiões do Brasil.

Um pouco mais caro que o diesel

O foco comercial da empresa são transportadoras e outros grandes consumidores de diesel que precisam reduzir suas emissões de carbono. Segundo Tapparo, a principal vantagem do produto é permitir essa redução de forma imediata. “O cliente não precisa trocar caminhões, investir em novos motores nem instalar infraestrutura para eletrificação ou gás. Basta substituir o combustível.”
Atualmente o Be8 BeVant custa, em média, entre R$ 7,50 e R$ 7,80 por litro, dependendo da região e da logística. Embora seja mais caro que o diesel fóssil, Tapparo afirma que continua sendo uma das alternativa s mais competitivas para empresas que buscam cumprir metas de descarbonização.
A Be8 acredita que a transição energética no transporte ocorrerá de forma gradual e que diferentes tecnologias deverão conviver nas próximas décadas. Dentro desse cenário, a empresa pretende posicionar o Be8 BeVant como uma alternativa de descarbonização imediata para veículos movidos a diesel, aproveitando a infraestrutura existente e evitando investimentos elevados em renovação de frota.

Copa Truck vira vitrine tecnológica

Recentemente a Be8 ampliou sua estratégia de divulgação ao adquirir os direitos de nomenclatura da principal categoria brasileira de caminhões de competição, que passou a se chamar Copa Truck Be8 BeVant. Segundo Tapparo, a iniciativa vai além do marketing. “A competição demonstra ao mercado que é possível unir desempenho e descarbonização. Além disso, permite desenvolver o produto em condições extremas e estreitar o relacionamento com as montadoras participantes”, afirma.
A B8 foi fundada em 2005. Ela tem sede em Passo Fundo (RS) e conta com escritórios administrativos em São Paulo (SP), em Cuiabá (MT), em Genebra, na Suíça e em Dubai (Emirados Árabes Unidos).