Por enquanto é só uma “ameaça”. Mas está longe de ser solução definitiva 

LUCIANO ALVES PEREIRA

Mesmo não sendo a instituição certa para a iniciativa, a Prefeitura de Belo Horizonte decidiu intervir no assunto dos perigos do trânsito no Anel Rodoviário da cidade, onde muitas e muitas pessoas têm perdido a vida em acidentes que, não raro, são provocados por caminhões.

O Anel é parte de uma rodovia federal – está, portanto, sob a responsabilidade do DNIT –, mas o prefeito decidiu juntar outros órgãos para discutir medidas de controle. Em novembro, ele se reuniu com representantes da concessionária Via 040, Polícia Rodoviá- ria Federal, Polícia Militar Rodoviária, ANTT e Guarda Municipal.

Há pouco a escolher, e a Prefeitura propôs a restrição à descida de caminhões, entre 17h e 20h, hora de pico do trânsito e da maior parte das ocorrências, no Por enquanto é só uma “ameaça”. Mas está longe de ser solução definitiva trecho de oito quilômetros do alto da Serra do Curral, entre o Olhos d’Água e a Avenida Amazonas. O projeto foi batizado de Aliança para a Vida.

No primeiro encontro não estavam presentes aqueles que mais tinham a ver com essa discussão: os transportadores e os caminhonistas, que podem ser os maiores prejudicados com a sugestão da Prefeitura.   A proposta foi chamada de “oportunista” pelo engenheiro especialista em trânsito José Aparecido Ribeiro, porque qualquer intervenção ali depende da aprovação do DNIT.

Quanto à restrição do trânsito de caminhões, Ribeiro diz que são necessárias áreas de estacionamento inexistentes hoje, para colocar a norma em prática. O sindicato das transportadoras de Minas (Setcemg) estimou que 19 mil veículos de carga passem diariamente pelo anel. Segundo o consultor técnico da entidade, Luciano Medrado, “por alto haveria um impacto de 29% de aumento do custo logístico” com a interdição de tráfego especulada.

Já o líder classista Ulisses Martins, da Empresa de Transportes Martins, acha que a perda de tempo no transporte faria os preços de alguns produtos subirem 18% para o consumidor. Martins propõe remediar o problema aumentando o policiamento e os radares. Mas o tenente Barreiros, da Polícia Militar Rodoviária, lembrou, em abril passado, quando um caminhão desenfreado esmagou 19 veículos, deixando um morto e seis feridos, que não faltam placas e radares na região, e que isso não estanca o ímpeto de motoristas irresponsáveis.

CONTRACULTURA – O fato é que, entre os estradistas, existe uma desobediência crônica à cultura do trânsito seguro. Nas redes sociais se veem manifestações de que uma carreta andando a 80 km/h “está se arrastando” ou é “a lesma da estrada”. O projeto Aliança para a Vida quer começar fazendo inspeções em veículos antes de entrarem no segmento crítico.

Deverão ser checadas as condições de freios, motor, suspensão, direção e pneus. O início está marcado para 11 de dezembro e os locais não foram divulgados. A tarefa ficará por conta da PMRv, com apoio da concessionária Via 040. Por enquanto não se fala em retenção de veículos até o pós-20h.

O desate do nó do Anel Rodoviário de Belo Horizonte tem que levar em conta o problema real do trecho: a grande declividade. Luciano Medrado, do Setcemg, lembra que o declive das rampas chega a 13%, enquanto os manuais de projetos rodoviários condenam rampas além de 4% para vias troncais (160 mil veículos/dia), como é o caso. Levando em conta a imponência da Serra do Curral, fica difícil imaginar quanto custaria a correção daquela deformação congênita. Mais indicado seria construir outra via.