Programa com R$ 10 bilhões para renovação de frota oferece juros mais baixos e já impulsiona vendas nas concessionárias
Nelson Bortolin
O caminhoneiro autônomo de Brasília Márcio de Souza e Silva, 51 anos, está comemorando uma conquista que parecia distante: a compra do primeiro caminhão zero-quilômetro. O veículo, um VWCO Constellation 26.260, foi comprado na concessionária Nasa, da Volkswagen Caminhões e Ônibus, de Brasília, por meio do programa federal Move Brasil, que disponibilizou R$ 10 bilhões para pessoas físicas e jurídicas do transporte rodoviário de cargas renovarem suas frotas.
Lançado pela Medida Provisória 1.328, de 17 de dezembro de 2025, o programa trabalha com taxas anuais estimadas pelo BNDES entre 13% e 14%, abaixo das praticadas nos financiamentos tradicionais.
Como funciona o programa
O Move Brasil é voltado a empresas de transporte, transportadores autônomos de cargas (TACs) e pessoas físicas ligadas a cooperativas. Com exceção das transportadoras, os demais podem financiar também caminhões seminovos, desde que tenham tecnologia ao menos Euro 5 (fabricados a partir de 2012).
Outro incentivo é a redução de juros para quem entrega um caminhão antigo para desmontagem.
A medida provisória reservou R$ 1 bilhão exclusivamente para autônomos e cooperados.
O prazo de pagamento pode chegar a 60 meses, com carência de até seis meses. O valor máximo financiável é de R$ 50 milhões por beneficiário.
A expectativa do mercado é de que os recursos se esgotem nos próximos meses, diante da forte procura.
Taxas abaixo do mercado
No Banco da Volvo, as taxas estão ligeiramente abaixo das médias divulgadas pelo BNDES. Empresas que entregam caminhões para desmonte pagam 11,80% ao ano; sem a entrega, a taxa sobe para 13,37%.
Para autônomos e pessoas físicas ligadas a cooperativas, os juros variam de 12,70% ao ano, com entrega de veículo antigo, até 13,34% sem essa contrapartida.
Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da Volvo, avalia que as condições são competitivas mesmo em um cenário de queda da Selic. “No momento, o financiamento de caminhões fora do programa está na casa de 20%, 22% ao ano. Já pelo Move Brasil, sai numa média de 13% ao ano. Vamos imaginar que até o final do ano a Selic, que hoje está em 15%, caia para 12,5%. Ainda assim teríamos uma taxa de 18%, 19% para financiar caminhões fora do programa. Então a taxa do Move Brasil ainda seria muito atrativa”, afirma.
Segundo ele, o desafio é o orçamento limitado. A expectativa na Volvo é de que os R$ 10 bilhões terminem até abril.
Procura por caminhões aumenta 38% no grupo Nasa
O vice-presidente do Grupo Nasa, Aldo Guedes, que representa a Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) em Brasília e Rio Verde (GO), afirma que a demanda por caminhões cresceu cerca de 38% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado. “Realmente, o programa Move Brasil reaqueceu bastante o mercado em nossa praça de atuação. Nossos clientes estavam demandando por uma medida como essa”, diz.
Segundo Guedes, a taxa média para pessoa física gira em torno de 1,05% ao mês (13,36% ao ano). “Em um financiamento comum, a taxa média chega a 1,49% ao mês (19,42% ao ano). O programa é muito vantajoso.”
A preocupação, porém, é com a duração da iniciativa. “O que escutamos de alguns operadores financeiros é que o orçamento do programa termina em março.”
Ele afirma que já vendeu caminhões tanto para empresas quanto para TACs e cooperados. “Vemos que os autônomos estão conseguindo comprar.”
Para os autônomos, é necessário apresentar certidão negativa no Cadin, regularidade fiscal, registro na ANTT e comprovação de renda via Imposto de Renda. Empresas precisam ainda comprovar CNAE 4930, específico para transporte rodoviário de cargas.
O sonho do primeiro caminhão zero
Um dos clientes que compraram caminhão na Nasa foi o autônomo de Brasília Márcio de Souza e Silva. Cooperado da Coopercam, ele adquiriu um VWCO Constellation 26.260 por R$ 470 mil.
Casado e pai de um adolescente de 15 anos, Silva transporta RCC (resíduos da construção civil), como brita, areia e pó de brita, em trajetos médios de 50 quilômetros, prestando serviços ao Governo do Distrito Federal.
Antes, rodava com um Mercedes-Benz modelo 1620, ano 2009/2010, que foi vendido para viabilizar a compra do novo veículo.
Organização fez a diferença
Para ele, a aprovação do crédito foi resultado de planejamento e disciplina. “Na verdade, o fato da gente estar dentro das regras, né? Ou seja, a gente tem uma vida equilibrada. Pagar as dívidas em dia é ter crédito na praça. Às vezes a pessoa não precisa ter uma renda muito alta e a cooperativa nos ajuda muito nesse quesito.”
Ele relata que o processo foi rápido e exigiu CNH, registro na ANTT, certidões negativas e comprovação de renda. “Foi tudo bem, foi tudo certo.”
Parcelas decrescentes
O financiamento tem parcelas decrescentes. As duas primeiras ficaram em torno de R$ 13 mil. Depois, caem para cerca de R$ 12.300, R$ 12.200 e seguem diminuindo até a última, de R$ 7.093. “Eu achei muito acessível, porque o juros realmente são muito bons. Eles vão ajudar a nossa classe de caminhoneiro.”
Sem o programa, afirma, não teria conseguido. “Se não fosse, eu não conseguiria não. Foi graças ao programa que eu comprei. É a primeira vez que eu tenho um caminhão zero.”
Conquista em família
O modelo foi adquirido na versão chassi e receberá uma caçamba para 12 toneladas, paga com recursos próprios. “Havia a opção de eu inserir a caçamba no pacote do financiamento, mas eu não optei porque já havia deixado um dinheiro guardado para isso.”
A entrega foi marcada por emoção contida. “Aqui nós estamos em festa. Meu filho e minha esposa também estão muito felizes. Foi um dia alegre para a gente. Quando a gente consegue algo que luta e você cumpre uma meta, isso já é mais um degrau da escada de objetivos que você tem na vida.”