De 16 trechos analisados por Observatório, 8 tiveram redução inferior a 15% e 3 apresentaram aumento

Nelson Bortolin

Concluídas as novas concessões de rodovias no Paraná e o início da cobrança em 4 dos 6 lotes, os buracos ainda não foram tampados em alguns trechos. E os preços não ficaram tão mais baixas como haviam prometido o governo do Estado e a União. É o que aponta levantamento do Observatório dos Pedágios, órgão criado pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) para acompanhar a execução das obras ao longo dos 30 anos de vigência dos novos contratos.

O estudo comparou os valores atuais com as últimas tarifas praticadas no antigo modelo de pedágio, vigentes em novembro de 2021. Após a atualização dos preços antigos pelo IPCA, o levantamento mostra que, dos 16 trechos analisados, 13 apresentam descontos reais.

As reduções variam de 0,4% na viagem entre Foz do Iguaçu e Paranaguá — onde o custo por eixo por quilômetro caiu de R$ 80,41 para R$ 80,09 — até 24,95% no trecho entre Ponta Grossa e Paranaguá, com queda de R$ 26,37 para R$ 19,79 por eixo/km.

Aumentos partindo de Foz do Iguaçu

Ao contrário dos descontos na maioria dos trechos, todas as viagens analisadas com origem em Foz do Iguaçu apresentaram aumento real em relação às tarifas antigas. O reajuste mais baixo foi no trajeto até Curitiba, com alta de 1,76%, passando de R$ 92,87 para R$ 94,50 por eixo/km.

Já o percurso até Prudentópolis teve aumento de 4,86%, de R$ 67,22 para R$ 70,49. A maior alta foi registrada entre Foz do Iguaçu e Cascavel, onde o custo por eixo por quilômetro saltou de R$ 17,41 para R$ 28,05, um aumento real de aproximadamente 61%.

“Prometeram que o pedágio ia ficar 30% mais barato. Chegaram a falar até em 50%. Mas isso não aconteceu”, afirma o consultor do Observatório, Homero Marchese.

Início da cobrança nos lotes

As concessões no Paraná foram realizadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em parceria com o governo do Paraná, já que os contratos envolvem também rodovias estaduais.

A cobrança de pedágio nos lotes 1 e 2 teve início em março de 2024. Já nos lotes 3 e 6, a cobrança começou em junho de 2025. Os lotes 4 e 5, que foram os últimos a serem leiloados, devem iniciar a cobrança entre março e abril deste ano.

Reajuste automático após duplicações

Um dos pontos que mais preocupam o setor é o impacto das obras no valor das tarifas ao longo das concessões. Com duração de 30 anos, os contratos preveem cerca de 1.700 quilômetros de duplicações, que devem ser concluídas, em sua maioria, até o sétimo ano de cada lote — chegando ao nono ano no lote 6.

“Após as duplicações, as tarifas sobem 40%”, destaca Marchese. Segundo ele, o reajuste é automático e proporcional ao trecho duplicado. “Com esse aumento de 40%, nós vamos ter tarifas bem mais altas do que as dos contratos anteriores”, afirma.

Diferença entre os lotes

Outra crítica feita pelo consultor é a disparidade de tarifas entre os lotes, resultado das seis licitações realizadas separadamente. “A tarifa média do lote 6, no Sudoeste, é quase 80% superior à do lote 1”, afirma. Segundo ele, a diferença está diretamente relacionada ao nível de concorrência nos leilões. “No lote 6 não teve concorrência nenhuma. No lote 1 teve concorrência e uma redução significativa na tarifa de partida.”

Cobrança com rodovias em más condições

Marchese também critica a autorização da ANTT para o início da cobrança em trechos que ainda apresentavam problemas no pavimento. Os contratos preveem que as concessionárias devem garantir condições mínimas antes da cobrança, como ausência de buracos, escorregamento de massa ou abaulamentos.

Ele cita a BR-376 como exemplo. A cobrança no trecho administrado pela PRVias começou em junho do ano passado, mas ainda há muitos buracos na pista. “A própria ANTT disse que a empresa não tinha cumprido tudo que estava previsto, mesmo assim autorizou o início da cobrança.”

A reportagem da Revista Carga Pesada percorreu a BR-376 entre Mauá da Serra e Ponta Grossa e constatou diversos pontos com buracos no asfalto.

A concessionária afirma que cumpriu as exigências de contrato (leia abaixo).

Visão do transporte rodoviário

Para o Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar), o principal problema não está nas tarifas atuais nem no serviço das concessionárias, mas no período em que o Estado ficou sem concessões.

“A leitura que o Setcepar e o segmento do transporte como um todo faz é de que nós perdemos quatro anos no Paraná”, afirmou o presidente da entidade, Silvio Kasnodzei.

Segundo ele, o encerramento dos contratos antigos, em novembro de 2021, seguido por um longo período sem pedágio, provocou deterioração da infraestrutura rodoviária. “As estradas ficaram praticamente abandonadas, o governo estadual não conseguiu fazer a manutenção necessária e as praças de pedágio foram totalmente depredadas. Tivemos que começar tudo do zero.”

Praça de Jataizinho, fechada em novembro de 2021 – Foto: Leonardo Sguarezi/AENFoto Leonardo Sguarezi/AEN

Avaliação do novo modelo

Apesar das críticas, Kasnodzei avalia de forma positiva o novo modelo de concessão. Ele destaca a ampliação da malha concedida, com cerca de mil quilômetros adicionais, e a participação das entidades do setor na construção dos contratos. “As federações do Paraná participaram ativamente dos estudos, e o Setcepar esteve diretamente envolvido na elaboração do novo modelo, que tende a trazer benefícios para toda a economia”, afirmou.

Para o dirigente, rodovias concedidas impactam diretamente a produtividade do transporte. “A hora que eu tenho estradas mais bem sinalizadas e mais seguras, eu aumento a produtividade do veículo, tenho um profissional mais motivado e menos cansado. Estrada pedagiada é outro nível.”

Segundo ele, embora exista o custo do pedágio, há compensações importantes, como redução da manutenção da frota, menor risco de acidentes e atendimento mais rápido em caso de pane.

A reportagem questionou a ANTT, por meio da assessoria de imprensa, sobre o fato de haver buracos na pista da BR-376 mesmo com cobrança de pedágio, mas ainda não obteve resposta.

Concessionária diz que cumpriu exigências

A PRVias enviou nota à Revista Carga Pesada dizendo que a ANTT só autorizou o início da cobrança do pedágio após verificar que a empresa havia cumprido com o previsto no contrato: “Início do Serviço de Atendimento ao Usuário (SAU), disponibilização de 13 bases com frota para socorro médico e mecânico e realização de atividades emergenciais que garantam as condições de trafegabilidade e segurança necessárias”.

A concessionária disse ainda que mantém equipes de pavimentação asfáltica, com reparos, fresagem e recomposição da pista, e de conservação, que fazem sinalização horizontal e vertical, roçagem e recuperação de elementos de segurança ao longo dos 569 quilômetros de rodovias. “ A concessionária está no oitavo mês de operação, dentro do prazo denominado trabalhos iniciais, que são os primeiros 12 meses do contrato de concessão.”

De acordo com a nota, a empresa tem mais de mil colaboradores nas atividades de conservação e pavimentos no momento, em frentes de serviços que atuam dia e noite, com planejamento específico para interferir o mínimo possível na fluidez do tráfego. “As intervenções são divulgadas semanalmente através da internet e dos meios de comunicação regionais.”

Desde o início da concessão, segundo a empresa, já foram aplicadas mais de 132 mil toneladas somente de massa asfáltica, 2,5 mil placas de sinalização substituídas, limpeza de mais de 8 mil placas, 20 milhões de metros quadrados de roçagem de áreas verdes, implantação de 16 mil tachas, além de 175 mil metros lineares de faixas pintadas.

“As equipes operacionais e postos de atendimento ficam disponíveis 24 horas ao dia, com 40 mil ocorrências já registradas em pista. Em oito meses foram mais de 26 mil usuários atendidos, mais de 16 mil auxílios mecânicos e mais de 3 mil atendimentos pré-hospitalares.”