Montadora afirma não haver preocupação com o aumento gradual da mistura no diesel, mas ressalta que o combustível renovável tem vida útil menor que o fóssil e exige atenção à logística de distribuição e abastecimento
Para a Volvo, o biodiesel produzido atualmente no Brasil é seguro e eficiente para os caminhões e não há motivo para preocupação com o aumento gradativo de sua mistura no diesel. A montadora afirma que a qualidade do produto nacional evoluiu significativamente nas últimas duas décadas e que seus caminhões convencionais já estão preparados para operar com misturas de até 25%. A empresa ressalta, porém, que o combustível renovável tem vida útil menor que o diesel fóssil, o que exige cuidados na logística entre a produção e o consumo.
Atualmente, o diesel vendido no País contém 15% de biodiesel, o chamado B15. A meta prevista na legislação brasileira é permitir a elevação gradual desse percentual até 20% em 2030.
O assunto foi abordado durante evento realizado no último dia 30, quando a Volvo anunciou a venda de 31 caminhões Volvo FH B100 Flex, preparados para operar com biodiesel puro, para o Grupo Potencial.
Em entrevista exclusiva à Revista Carga Pesada, Jeseniel Valério, gerente de engenharia de vendas de caminhões da Volvo, afirmou que a imagem negativa do biodiesel, muitas vezes associada à formação de borra e a problemas mecânicos, tem origem nos primeiros anos de produção do combustível no Brasil. “Eu acredito que essa imagem que o biodiesel traz, de que forma borra, de que tem problemas, está muito atrelada ao início da produção, nos anos de 2002, 2003 e 2004, quando o Brasil começou a produzir biodiesel e ainda não havia uma regulamentação e o controle da ANP”, afirmou.
Segundo Valério, esse cenário mudou. Ele afirma que as normas técnicas adotadas no Brasil são rigorosas e têm contribuído para elevar a qualidade do biodiesel produzido no País. “A lei que controla tecnicamente o biodiesel no Brasil, com a ANP fazendo esse controle, é a mais rigorosa que existe no mundo. Os requisitos técnicos que a ANP coloca para os produtores fazem com que eles entreguem ao mercado um biodiesel superior, inclusive em qualidade, pureza e limpeza, ao da Europa”, disse.
Biodiesel brasileiro é analisado pela montadora
De acordo com Valério, a Volvo acompanha a introdução e a utilização do biodiesel nos diferentes mercados onde atua e analisa o combustível produzido por quase todos os fabricantes brasileiros. “A gente tem analisado o biodiesel de quase 100% dos fabricantes aqui do País e, para nossa surpresa, todos os biodieseis analisados são realmente de qualidade superior aos da Europa”, afirmou.
Para o executivo, a evolução da qualidade traz maior confiabilidade para a utilização do B15 comercializado atualmente nos postos. “Isso traz uma confiabilidade para que os 15% de biodiesel que estão indo para a bomba hoje realmente entreguem algo de muito mais qualidade do que tínhamos no passado”, declarou.
Valério destacou ainda que os caminhões convencionais atualmente produzidos pela Volvo já estão tecnicamente preparados para operar com percentuais de biodiesel superiores à mistura obrigatória.
“Nossos caminhões, com os motores atuais, normais, que saem da linha, estão preparados para rodar com até 25% de biodiesel. Isso já está disponível para todos os clientes que compram nossos caminhões hoje”, afirmou.
Tecnologia permite abastecimento com B15 ou B100
Além dos caminhões convencionais, a Volvo oferece a tecnologia B100 Flex. Segundo Valério, o sistema permite que o mesmo veículo seja abastecido tanto com biodiesel puro quanto com o diesel S10 comercializado nos postos, que atualmente contém 15% de biodiesel. “Lembrando que a Volvo é a única que possui essa tecnologia Flex, em que o cliente que adquire um caminhão para rodar com 100% de biodiesel pode abastecer tanto com S10, que tem B15, quanto com B100”, explicou.
O executivo ressaltou que o biodiesel puro ainda não está disponível para abastecimento geral nos postos. Seu uso está concentrado em empresas que possuem estrutura própria de abastecimento e buscam reduzir as emissões de gases de efeito estufa em suas operações. Segundo Valério, o uso do B100 produzido no Brasil pode proporcionar uma redução de até 90% nas emissões de CO₂, considerando o ciclo do combustível.
Vida útil exige atenção
Apesar da avaliação positiva sobre a qualidade do biodiesel, Valério ressalta que o combustível renovável apresenta uma característica que exige atenção: sua vida útil é menor que a do diesel de origem fóssil.
Ao ser questionado se a Volvo, sua rede de concessionários e o pós-venda têm detectado problemas provocados pela utilização da mistura de biodiesel, o executivo afirmou que não.
“Eu posso afirmar que a gente não tem visto isso. Obviamente, o biodiesel tem uma vida útil, vamos dizer assim, um pouco menor do que o diesel fóssil, feito do petróleo. E essa vida útil tem que se encaixar dentro da logística de abastecimento do País”, explicou.
De acordo com Valério, o período considerado nessa cadeia é de aproximadamente 45 dias entre a fabricação e o consumo do combustível. Por isso, ele recomenda que transportadores e motoristas busquem informações sobre a cadeia logística junto aos fornecedores de diesel.
“Os clientes e motoristas que têm essa preocupação podem conversar com seu fornecedor de diesel ou com o posto onde abastecem para saber como está essa cadeia logística”, disse.
O gerente da Volvo destaca que a escolha de estabelecimentos com alta rotatividade de combustível reduz o risco de o diesel permanecer armazenado por períodos excessivos.
“Optar por fornecedores e postos que tenham alta rotatividade de abastecimento, com certeza, fará com que aquele diesel que está no tanque do posto ainda esteja dentro da validade, porque há um giro muito maior no consumo”, afirmou.
Segundo Valério, os cuidados com o tempo de armazenamento permitem que o biodiesel cumpra sua principal função ambiental sem causar problemas aos veículos. “Isso garante que o biodiesel esteja dentro da validade e não cause nenhum problema aos nossos produtos e caminhões. Principalmente, permite que ele faça o seu papel, que é reduzir as emissões”, concluiu.
