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Valdecir: “O motorista é o nosso principal patrimônio”

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Consorcio
Fundador da Transpanorama destaca a importância de valorizar quem está na estrada e vê na preparação da nova geração o caminho para garantir a continuidade da empresa
Quando Valdecir Adamuccio olha para os 40 anos da Transpanorama, a sensação é de que o tempo passou depressa. “Para mim, passou como se fosse uma semana”, afirma. Quatro décadas depois de iniciar a trajetória ao lado do irmão, Claudio, ele continua acompanhando de perto o mercado e identifica um cenário muito mais complexo do que aquele encontrado no início da empresa.
À frente da área comercial, Valdecir mantém contato diário com clientes e acompanha as transformações de um mercado cada vez mais exigente. Sua experiência ao longo dessa trajetória, acompanhando de perto os motoristas, continua influenciando sua visão sobre a operação. Para ele, o motorista permanece como a peça central de uma transportadora. “Minha luta é  sempre lembrar a todos os gestores que o motorista é o nosso principal patrimônio e a importância de zelar por eles.”
A escassez de profissionais tornou essa missão ainda mais importante. A Transpanorama procura adaptar o trabalho às características dos motoristas, oferecendo diferentes tipos de veículos e operações. A frota reúne graneleiros, sider, bobineiras, baús, frigorificados e diversos modelos de tanques. A segurança também ganhou uma dimensão tecnológica com o uso de telemetria, câmeras, rastreamento, controle de velocidade, roteirização e treinamento. “São bem treinados, muito treinados, muito escolados”, resume Valdecir.
Outra parte importante dessa trajetória está na participação no G10. Criado inicialmente como uma união de transportadoras, o grupo permitiu às empresas ganharem escala nas negociações com fornecedores, conquistar grandes clientes e, sobretudo, compartilhar experiências. Com o tempo, o G10 ganhou vida empresarial própria.
Segundo Valdecir, que sempre esteve à frente da liderança comercial do grupo, essa transformação começou a se consolidar por volta de 2012 e 2013, quando G10 deixou de ser apenas uma união de empresas e passou a operar como uma companhia, com gestão e resultados. Enquanto a Transpanorama mantém uma estrutura baseada em ativos próprios, o G10 trabalha fortemente com subcontratação.

A sucessão

Aos 40 anos da empresa, uma das prioridades dos fundadores é garantir a continuidade do negócio. Valdecir e Claudio têm quatro filhos — Guilherme e Polyany, filhos de Valdecir, e Jessica e Izabella, filhas de Claudio — envolvidos no processo de sucessão. Para Valdecir, a preparação da nova geração não significa simplesmente colocar os filhos nas posições ocupadas pelos pais, é necessário identificar o perfil de cada um e encontrar o espaço em que os mesmos poderão contribuir melhor para a continuidade da empresa.
O processo é acompanhado por assessoria especializada e leva em consideração também profissionais que construíram carreira e, certamente, farão parte do futuro da Transpanorama. A preocupação central é garantir que a empresa continue existindo independentemente de quem esteja no comando. “Eu me preocupo quando eu e meu irmão estivermos impossibilitados de fazer parte da diretoria, por isso, estamos organizando a sucessão e plano de continuidade da melhor forma.”
Contudo, Valdecir reconhece que a nova geração chega com uma vantagem importante: o domínio da tecnologia e das novas ferramentas de gestão. Porém, para ele, isso precisa estar acompanhado da experiência prática. “Primeiramente, a importância de valorizar a humildade.” Os sucessores precisam conhecer a empresa desde a base e colocar a mão na massa para compreender toda a operação.
O fundador diz estar satisfeito com o amadurecimento dos filhos e sobrinhas, que começam a compreender também a necessidade de conciliar a vida pessoal com as demandas da empresa. “É gratificante ver como eles estão assimilando e evoluindo.”
Depois de quatro décadas, Valdecir não coloca o crescimento como prioridade absoluta. “Nós queremos deixar os filhos e a empresa organizados.” Mais do que crescer a qualquer custo, a intenção é manter a companhia saudável e preparada para atravessar as transformações do setor.
Para ele, o transporte brasileiro também precisará se reinventar. Valdecir defende mudanças na relação entre transportadoras, motoristas e legislação trabalhista e acredita que alguns segmentos poderão caminhar para modelos mais próximos dos existentes nos Estados Unidos e na Europa, onde a responsabilidade dos motoristas e empresas são congruentes, diferente do Brasil, o qual, na sua avaliação, o ambiente regulatório brasileiro concentra responsabilidades apenas nas empresas e torna a operação cada vez mais complexa.

Os desafios

Entre os desafios atuais está a necessidade de diversificar as operações e reduzir a dependência de segmentos mais pressionados por preço. A Transpanorama vem ampliando sua atuação em áreas que exigem maior especialização, como combustíveis, contêineres frigorificados, aço e industrializados. Para Valdecir, são mercados em que atributos como qualificação, segurança e rastreabilidade têm peso maior na escolha do transportador.
O empresário também aponta o impacto das regras de jornada, da infraestrutura rodoviária e da evolução dos roubos e adulterações de cargas sobre a produtividade e os custos. “O caminhão evoluiu e a infraestrutura não acompanhou.”
Nas operações ligadas ao agronegócio, ele vê uma pressão particularmente forte sobre os preços. “O agro está ficando difícil para um frotista que segue as normas de sustentabilidade, jurídicas, regularidade ambiental e qualificações. A maioria das empresas do agro preza apenas por precificação.”
A tecnologia, que ampliou a capacidade de gestão e segurança, também trouxe novos desafios. Valdecir cita a sofisticação de crimes envolvendo transferência e adulteração de cargas e resume a dimensão do problema: “Não tem seguro que dê conta.”
Na área ambiental, a Transpanorama participa de projetos envolvendo biometano e biodiesel, embora o empresário veja dificuldade em transformar o interesse dos embarcadores por soluções sustentáveis em disposição para pagar mais por elas.
Aos 40 anos, portanto, a Transpanorama vive uma etapa diferente daquela enfrentada pelos fundadores no começo da jornada. O desafio agora é combinar experiência e renovação, tecnologia e conhecimento prático, produtividade e segurança, enquanto prepara a próxima geração para assumir a empresa.
Para Valdecir, o objetivo cabe em uma frase: “o crescimento ou estabilidade de uma empresa não se dá apenas pela busca contínua e enlouquecedora por número, número, número. Mas, especialmente. pelo amor ao trabalho e a satisfação de ver todos os colaboradores bem.”
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