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Sucesso para as montadoras, frustração para os autônomos

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Consorcio

Recursos destinados pelo BNDES pelo Move Brasil se esgotam antes do prazo, mas caminhoneiros ficam com parcela ínfima do orçamento

Criado para estimular a renovação da frota pesada nacional, o programa BNDES Mais Mobilidade (Move Brasil) vem sendo um sucesso, principalmente para as concessionárias e fabricantes de caminhões. Tanto que o governo já abriu uma segunda etapa. Os R$ 10 bilhões disponibilizados na primeira fase se esgotaram rapidamente, e os R$ 21,2 bilhões da segunda também devem acabar muito antes do prazo final, previsto para 28 de agosto.

Balanço divulgado pelo BNDES em 16 de junho mostrava que, apenas 12 dias após o início da segunda etapa, 47% dos recursos já estavam comprometidos.

As montadoras comemoram. O Scania Banco, por exemplo, informou em 23 de junho que já havia protocolado R$ 1,3 bilhão em financiamentos pelo Move Brasil somente na segunda fase do programa, volume suficiente para cerca de 1.300 caminhões.

Apesar do sucesso, o programa evidencia, mais uma vez, a dificuldade dos caminhoneiros autônomos para acessar linhas de crédito com juros mais baixos. Dos R$ 10 bilhões aprovados pelo BNDES até 16 de junho, apenas R$ 139,8 milhões foram destinados à categoria — o equivalente a 1,4% dos recursos liberados pelo banco.

Em número de contratos, a participação também foi pequena. Das 8.377 operações aprovadas até aquela data, somente 315 foram contratadas por transportadores autônomos, o que representa 3,76% do total.

O valor médio dos financiamentos também revela a diferença entre os perfis dos beneficiários. Enquanto as empresas contrataram operações com tíquete médio de R$ 1,22 milhão, entre os autônomos o valor médio ficou em R$ 443,8 mil.

Os números chamam ainda mais atenção porque o programa reservou R$ 2 bilhões exclusivamente para transportadores autônomos de cargas e pessoas físicas vinculadas a cooperativas. Até a divulgação do balanço, apenas 6,99% dessa reserva havia sido efetivamente utilizada.

O retrato de quem conseguiu

No início do ano, ainda durante a primeira fase do programa, a Revista Carga Pesada estampou na capa da edição 60 a história do caminhoneiro autônomo Márcio de Souza e Silva, de Brasília (DF), que conseguiu financiar seu primeiro caminhão zero-quilômetro, um VWCO Constellation 26.260, por meio do Move Brasil.

Na época, ele ainda não havia iniciado as operações com o veículo. Seis meses depois, a reportagem voltou a conversar com Márcio para saber como estava sua experiência com o caminhão novo. A entrevista completa pode ser acessada clicando aqui.

Além de afirmar que a troca do velho caminhão representou uma mudança significativa em sua qualidade de trabalho, Márcio acredita que poucos autônomos conseguem atender aos critérios exigidos para aprovação do financiamento. Para ele, muitos acabam barrados por restrições de crédito ou por não cumprirem os pré-requisitos do programa. “Eu sempre procurei honrar meus compromissos. Faço questão de manter um bom histórico financeiro. Mas nem todo mundo consegue. Às vezes a pessoa passou por uma doença ou outra dificuldade financeira, ficou negativada e isso acaba impedindo o financiamento.”

Ceticismo entre os caminhoneiros

Christian Wilson Dutra

Os comentários publicados nas redes sociais da Revista Carga Pesada reforçam a percepção de que o acesso ao programa continua restrito. “Rapaz, conheço um cara que tem cinco caminhões rodando, nome limpo e crédito em várias instituições, mas, pelo programa do governo federal, não conseguiu aprovação. Sou do ramo e não conheço nenhum autônomo que tenha conseguido”, afirmou Samuel Ribeiro, de Primavera do Leste (MT).

O caminhoneiro Christian Wilson Dutra também demonstra ceticismo quanto à iniciativa. “Sinceramente, não sei se isso é um bom negócio. A situação está feia para nós. As grandes empresas estão abocanhando os melhores fretes. Aí você compra um caminhão desses e depois não consegue serviço para pagar a prestação, o seguro, a manutenção e ainda colocar comida em casa?”, questiona.

Ele diz preferir continuar trabalhando com seu caminhão antigo. “Prefiro ficar com meu caminhão véio mesmo. Se tiver serviço, beleza. Se não tiver, tudo certo. O caminhão está quitado e o banco não pode tomar.”

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