PRF também acredita no aquecimento econômico como causa do crescente número de sinistros envolvendo caminhões nas vias federais
Nelson Bortolin
Depois de uma queda de 4% em 2022, o número de acidentes envolvendo caminhões voltou a crescer de forma contínua nas rodovias federais brasileiras. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que foram registradas 16.824 ocorrências em 2022, 17.533 em 2023 — alta de 4,2% — e 18.514 acidentes em 2024, aumento de 5,5% em relação ao ano anterior. A totalização dos dados de 2025 ainda não foi divulgada pela corporação.
O crescimento é ainda mais expressivo quando se observa o número de mortes. Após uma redução de 3% em 2022, os óbitos em acidentes envolvendo caminhões aumentaram 6,7% em 2023 e 10,4% em 2024. Em números absolutos, foram 2.447 mortes em 2022, 2.613 em 2023 e 2.885 em 2024.
Para o coordenador-geral de Segurança Viária da PRF, Jeferson Almeida, há pelo menos duas hipóteses principais para explicar o aumento das ocorrências: o afrouxamento das regras de trânsito e o aquecimento da economia, que ampliou a circulação de veículos e a movimentação de cargas.

“Houve um período em que tivemos limitação para fiscalizar a Lei do Descanso. Também ocorreram mudanças no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) que coincidem com o aumento das ocorrências”, afirma Almeida.
Entre essas alterações está a Lei nº 14.071, em vigor desde 2021, que ampliou o limite de pontos para a suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e aumentou o prazo de validade do documento. Segundo o coordenador, o relaxamento das regras pode ter influenciado o comportamento dos motoristas. “Não podemos afirmar com certeza que foi isso, mas é uma hipótese que precisa ser considerada. O que podemos dizer é que o comportamento do motorista hoje está mais próximo de um padrão de risco”, avalia.
Outro fator apontado pela PRF é o desempenho da economia. Após a forte retração causada pela pandemia de covid-19, o Produto Interno Bruto (PIB) voltou a crescer nos anos seguintes: 4,8% em 2022, 3,0% em 2023, 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. “Com a melhora da economia, há aumento do fluxo de veículos e da movimentação de cargas. Entendemos que isso também contribui para o crescimento da sinistralidade”, explica Almeida.
Exame toxicológico ajudou, mas precisa evoluir
Questionado sobre a importância do exame toxicológico na redução dos acidentes, o coordenador reconhece que não há estudos conclusivos que comprovem sua eficácia, mas afirma que a PRF considera a medida relevante. O exame se tornou obrigatório em março de 2016. Naquele ano, houve uma queda de 26% nos sinistros envolvendo veículos de carga nas rodovias federais.
Almeida, no entanto, avalia que o modelo atual do exame precisa evoluir. Hoje, o teste é de larga janela de detecção, feito em laboratório, e indica apenas se houve uso de drogas nos últimos três meses, sem identificar se o motorista estava sob efeito de substâncias no momento da abordagem.
“Infelizmente, não existe hoje no mercado brasileiro nenhum equipamento que indique se o condutor está, naquele momento, sob efeito de droga. Isso precisa melhorar. O ideal é que seja possível saber na hora, e não se houve consumo há 30 dias”, conclui.





