Especialista explica por que o sistema a disco é mais eficiente e seguro, mas ainda pouco usado em veículos comerciais no Brasil
Enquanto a maior parte dos veículos comerciais na Europa já utiliza freio a disco, no Brasil o sistema predominante ainda é o freio a tambor, especialmente em caminhões e ônibus. Para explicar as diferenças entre os dois sistemas, seu funcionamento e os cuidados necessários, consultamos o canal Condução EXTRAeconômica, do especialista no assunto, Luiz Pigozzo.
Ele dá uma aula completa sobre o tema. Segundo Pigozzo, a escolha do sistema de frenagem está diretamente ligada à capacidade de gerar força, à segurança e ao custo de manutenção, fatores decisivos no transporte rodoviário de cargas.
Como funciona o freio a tambor
O freio a tambor atua por meio do atrito entre a lona de freio e o tambor, que gira solidário à roda. Em veículos leves e comerciais de menor porte, o acionamento normalmente é hidráulico, feito por óleo. Já em caminhões e ônibus, o sistema é pneumático, acionado por ar comprimido.
De acordo com Pigozzo, o óleo tem limitação de força, o que impede seu uso em veículos muito pesados. “Quanto maior o peso e a potência do veículo, maior precisa ser a força de frenagem. Por isso, nos caminhões usamos o sistema a ar, com pressões cada vez mais altas”, explica. Hoje, já existem veículos operando com linhas de ar entre 10 e 12 bar.
O sistema a tambor é composto por diversos componentes: tambor de freio, sapatas, lonas, molas de retorno, eixo S, roletes, catraca de freio e cuíca. Ao pisar no freio, o ar pressurizado movimenta o êmbolo da cuíca, que gira o eixo S, forçando a abertura das sapatas contra o tambor. O retorno das sapatas ocorre por meio das molas.
Essa complexidade exige atenção constante à manutenção. A quebra ou o deslocamento de uma mola de retorno, por exemplo, pode fazer a sapata ficar em contato permanente com o tambor, gerando superaquecimento, incêndio em rodas e até fogo nos pneus.
Outro ponto crítico é o desgaste do conjunto. O aumento excessivo da folga entre lona e tambor pode provocar o chamado “virar o S”. Nesse caso, o eixo gira além do limite correto, podendo travar a roda ou, ao contrário, não gerar frenagem suficiente. Por isso, é essencial monitorar o desgaste das lonas e do tambor, além de respeitar o curso máximo da alavanca, que não deve ultrapassar 90 graus.
Catraca manual e catraca automática
Dentro do sistema a tambor, a regulagem da catraca de freio é decisiva para a eficiência da frenagem. Existem dois tipos: manual e automática.
Na catraca manual, o ajuste da folga entre lona e tambor precisa ser feito periodicamente, podendo ser diário ou semanal, dependendo da aplicação do veículo. Em operações severas, como uso urbano intenso ou descidas de serra, a regulagem frequente é indispensável.
Já a catraca automática faz esse ajuste sozinha a cada frenagem, mantendo a distância correta ao longo do desgaste das lonas. Por isso, a maioria das frotas tem optado por esse sistema. Mesmo assim, o funcionamento da catraca automática deve ser verificado periodicamente, observando se ela realmente se movimenta quando o freio é acionado.
Além disso, o desgaste do eixo S, das buchas e das estrias pode gerar folgas que comprometem toda a frenagem. “Freio é um sistema, e qualquer folga ou desgaste em um componente afeta o conjunto”, alerta Pigozzo.
A escolha correta da lona de freio também é fundamental. Lonas inadequadas para a aplicação podem causar desgaste irregular, trincas no tambor e superaquecimento. Operações urbanas, rodoviárias ou com uso intenso de freio exigem materiais diferentes.
Como funciona o freio a disco
O freio a disco se destaca pela simplicidade e pela eficiência. O sistema é formado basicamente por disco, pinça, pistões e pastilhas. Ao acionar o freio, o fluido hidráulico ou a ar empurra os pistões da pinça, que pressionam as pastilhas contra o disco, gerando o atrito necessário para a frenagem.
Com menos componentes, o sistema a disco dissipa melhor o calor, responde mais rapidamente e oferece frenagens mais uniformes. Por isso, é amplamente utilizado na Europa e já se tornou padrão em carros de passeio, motos e até bicicletas.
Apesar da simplicidade, o freio a disco também exige manutenção rigorosa. A qualidade do fluido é essencial, já que contaminação por água ou partículas sólidas pode danificar retentores e pistões, causando desgaste irregular e perda de eficiência.
Entre os principais cuidados estão o uso de pastilhas de qualidade, a troca periódica do fluido, a verificação da espessura e do empenamento do disco e a atenção a ruídos durante a frenagem. “Ruído em freio é sinal de problema e exige manutenção imediata”, destaca o especialista.
Desgastes irregulares das pastilhas também indicam falhas no sistema, como pistões trabalhando de forma desigual, o que compromete a segurança.
Segurança começa no conhecimento
Para Luiz Pigozzo, independentemente do sistema adotado, o mais importante é conhecer o funcionamento do freio do próprio veículo e realizar inspeções regulares. Um check-list simples, aliado à observação técnica, pode evitar falhas graves, reduzir custos e, principalmente, salvar vidas.
“Freio não é item de conforto, é item de segurança. Entender como ele funciona e manter tudo em ordem faz toda a diferença no dia a dia do transporte”, conclui.
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