Decisão de Bolsonaro deve fazer reabrirem todos os estabelecimentos à beira de estradas
Nelson Bortolin
O presidente Jair Bolsonaro baixou decreto nesta quarta-feira (29) ampliando as atividades consideradas essenciais e que não podem sofrer interrupção durante a pandemia do novo coronavírus. Entre elas, “atividades de comércio de bens e serviços, incluídas aquelas de alimentação, repouso, limpeza, higiene, comercialização, manutenção e assistência técnica automotivas, de conveniência e congêneres, destinadas a assegurar o transporte e as atividades logísticas de todos os tipos de carga e de pessoas em rodovias e estradas”.
Quando os Estados começaram a tomar medidas de isolamento social no mês passado, caminhoneiros reclamavam que não tinham onde se alimentar durante as viagens porque os restaurantes haviam sido fechados em sua maioria.
Mas, segundo apurou a reportagem, essas medidas foram flexibilizadas antes do decreto de Bolsonaro e a maior parte dos estabelecimentos já voltaram a funcionar vendendo marmitas, sendo que os clientes não podem comer no local. Com a decisão do presidente, a expectativa é que os restaurantes voltem a atender normalmente.
Motoristas com os quais a Revista Carga Pesada conversou não têm receio de dividir mesas para fazer suas refeições.

Johnny Amaral
“Não vejo problemas”, diz o mineiro de Sete Lagoas, Johnny Amaral. Ele afirma que tem usado máscara sempre que sai do veículo. E tem encontrado restaurantes abertos na Fernão Dias e na BR-040, por onde roda. “A maioria só vende marmitex. Mais do jeito que está, estão conseguindo nós atender”, alega.
Para Antônio Carlos Rodrigues, de Londrina, também não há problema em almoçar em restaurantes, desde que seja respeitado um distanciamento entre as pessoas – o Ministério da Saúde recomenda ao menos 1,5 metro. “Até porque já tivemos gripes tão perigosas quanto esta”, acredita Rodrigues.
Segundo ele, que roda no Centro-Sul do País, 95% dos restaurantes de estrada estão abertos e todos com dificuldade financeira porque o movimento se encontra bem abaixo do normal.
Outro londrinense, o Luiz Aranda espera que o decreto de Bolsonaro tenha efeito logo porque as restrições estão “atrapalhando a vida de todos”. Ele tem encontrado restaurantes que atendem normalmente e outros que só vendem marmitas. Questionado se se sente seguro ao comer junto com outras pessoas, Aranda diz: “Risco todos nós corremos, temos de tomar precauções.” Para o motorista, a “economia também mata”.

Luiz Aranda
O paranaense garante que usa máscara e que tem encontrado álcool em gel disponível nos postos, restaurantes e nas sedes dos embarcadores.
Já o gaúcho Eliardo Locatelli, que percorre os estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, alega que a maioria dos restaurantes só está vendendo marmitas. “Os que estão abertos com almoço no local têm restrição de lugares”. Ele afirma sentir-se seguro em fazer suas refeições nesses locais se as demais pessoas tirarem as máscaras só para comer e se houver álcool em gel.
“A gente não vê a hora de voltar tudo ao normal porque está muito difícil”, diz Fabrício Borba, de Sete Lagoas. Ele roda as BRs 262, 040 e 381 em Minas e tem encontrado alguns restaurantes vendendo marmitas e outros oferecendo comida no local, mas com limitação no número de clientes. “Se deixar passar um pouco a hora do almoço e da janta, a gente não come mais.”

Vanderli Caetano
O presidente do Sindicato dos Caminhoneiros de Goiás, Vanderli Caetano, considera que os caminhoneiros não estão “temerosos” em relação ao coronavírus. Mas ele prefere a prudência: “Não como em restaurante. Pego minha quentinha e como fora”, conta. De acordo com Caetano, em seu Estado, poucos restaurantes servem comida aos clientes em suas dependências.
O mineiro Wellington da Torre também prefere pegar marmitex. “Penso que (mesmo com o decreto) nem todos voltarão a funcionar totalmente. Ainda existe sensatez nesse meio”.
BOLSONARO MENTE
Embora o presidente da República chame de “gripezinha”, não se trata de gripe. A Covid-19 é uma doença bem mais grave, que, em quatro meses, ceifou as vidas de mais de 220 mil pessoas no mundo, sendo 5.466 no Brasil (449 somente nesta quarta-feira).
Para provar que Bolsonaro mente, basta acessar o site do Ministério da Saúde. A Covid já matou em 45 dias (a primeira morte no País ocorreu dia 16 de março) mais do que todas as doenças chamadas de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no período de quase um ano, de 30 de dezembro de 2018 a 7 de dezembro de 2019.
Segundo boletim epidemiológico do Ministério (clique aqui para baixar) .Durante aquele período, foram 4.939 mortes por SRAG, sendo que as gripes pelos vírus influenzas (incluindo o temido h1n1) responderam por 1.109 desses casos.
Na nova edição digital da Revista Carga Pesada, você pode ler uma entrevista com o médico Rafael Mialski, membro da Associação Paranaense de Infectologia, com dicas específicas para os caminhoneiros se prevenirem da Covid-19.